Karla Rondon Prado: Divagações

Qual o objetivo dos mascarados que se infiltraram entre o povo que seguia a Via Sacra com o Papa em Copacabana?

Por nara.boechat

Rio - Quem tem o hábito de ler a coluna já deve ter notado que falo de morte com muita tranquilidade, até porque nasci numa família grande e tive que encarar desde cedo várias perdas. Isso não me deixou fria ou cética, pelo contrário. Só vivo pensando em viver da melhor forma, em cultivar sentimentos bons, ignorando qualquer possibilidade de rancor, porque sei que em algum momento vai ter o ponto de partida. Ninguém precisa temer a morte, há quem não possa falar a palavra ou lidar com o assunto, como se não fosse normal. Até compreendo, mas é mais simples não se abalar (se no momento ninguém morreu) e passar pelo tema até chegar novo assunto como quem conversasse sobre o tempo. São coisas da vida.

Por essas e por outras que, por mais que a realidade bata à porta, certas questões simplesmente não se encaixam para mim. Qual o objetivo daqueles mascarados que se infiltraram entre o povo que acompanhava a Via Sacra com o Papa em Copacabana? Não vejo política ali, acho uma palhaçada. Vi uns vídeos no Facebook de uns sujeitos passando, espalhando medo no público. Todos ali em paz, rezando, numa boa, e meia dúzia de gatos pingados encarnando o espírito de porco. Muita coisa errada e sem sentido. Esse tipo de imagem me parece que mais beneficia o governo e tudo que deve ser alvo de indignação e mudança do que qualquer outra coisa, pois enfraquece o movimento genuíno, de quem foi às ruas pedir mudanças reais. Vira outra história. E quem quer que não tenha servido para nada?

Enquanto reflito, me pego congelada vendo outra cena: uns seis peregrinos, três meninas e três meninos de seus 18 anos, brincando numa pracinha perto da Central do Brasil, sem a menor noção de localização ou perigo, enrolados na bandeira do Brasil. O motorista também nem viu o sinal aberto e parado ficou, até que nos flagramos quase estáticos pelo retrovisor. “Bonita cena, né?”, comentei. O motorista sorriu: “Parece que estamos em outra cidade. O que esses jovens têm na cabeça para virem ao Brasil?” Engatou a primeira, e seguimos caminho.

Entendi o que ele quis dizer. O Brasil é uma espécie de imagem onírica. De sua bandeira verde-matas ao amarelo-sol, o azul dos dias bonitos, as estrelas e tal. O Rio, cidade belíssima de sonho, principalmente com dias claros de inverno. Mas que povo... Vemos uma cena de paz como se fosse rotina e logo transportamo-nos para outro país... Como temos que melhorar em muitos aspectos para não sermos ocos. Muitas vezes nós, brasileiros, somos que nem aquele homem bonito, que acha que não precisa ter nada mais a oferecer, que só beleza basta. E é aí que pecamos.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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