Tragédias, versões e verdade

Os casos Amarildo e Pesseghini têm muito em comum

Por bferreira

Rio - Os casos Amarildo e Pesseghini têm muito em comum. Ambos se referem a acontecimentos bárbaros e muito mal explicados, cuja indefinição alimenta o perigoso exercício de lucubrar versões — estas, moldadas de acordo com a conveniência e totalmente de encontro a preceitos básicos da cidadania e de um Estado Democrático de Direito.

No episódio da chacina da família de PMs paulistas, despejou-se com certeza cristalina a execução do crime nas mãos de um menino. Impressionou a rapidez com que se ‘elucidou’ a questão, admitindo-se extrema facilidade e perícia do ‘jovem assassino’. Agora surge um incômodo desencontro de informações. A mãe do rapaz teria denunciado malfeitos de colegas de farda, e ontem vizinha jura ter visto homens pulando o muro da casa onde sucedeu o macabro. Pode ter sido revelada a verdade, mas é prudente rever a apuração para evitar um fiasco e uma injustiça.

No que toca a Amarildo, assombram as recentes insinuações de que ele e sua família eram comandados do tráfico — como se isso desse salvo-conduto para extermínios. Não parece ser o caso, já que o pedreiro vivia na pobreza. Ainda que se comprove ligação com o crime, o Estado tem de garantir a integridade de todos — a foras da lei cabe a Justiça e penas por ela definidas, jamais um desaparecimento ou, pelo que indicam os indícios, a mais cruel e indigente das mortes.

Versões, quando repetidas à exaustão, conseguem recriar a realidade. Às vezes são inofensivas. Mas causa grave apreensão quando autoridades, que deveriam prezar pela isenção, forçam para que vigore a ‘verdade’ que lhes é mais conveniente.

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