Fernando Molica: No Municipal, um ingresso para o futuro

O gol de placa ocorreu quando seis músicos da Orquestra AfroReggae subiram ao palco

Por bferreira

Rio - Em futebol é comum dizer que um determinado lance — um drible, um gol de bicicleta — vale o ingresso. Foi assim na noite de segunda, no mais nobre de nossos teatros, o Municipal. Como o concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira em homenagem aos 20 anos do AfroReggae era gratuito não dá para se falar em preço de ingresso, mas num outro tipo de custo-benefício.

O gol de placa da apresentação ocorreu quando seis músicos da Orquestra AfroReggae subiram ao palco para, misturados aos integrantes da OSB, tocar uma das peças do programa, ‘Andante festivo’, de Sibelius.

A qualidade e o talento independem de estilos, não se pode dizer, de maneira genérica, que a chamada música clássica seja superior à popular: Pixinguinha, Villa-Lobos e Tom Jobim tinham prazer em quebrar essa barreira. Mas é injusto se negar à grande maioria da população o direito de conhecer e de praticar uma forma de expressão musical que exige tanto estudo, dedicação e até dinheiro para a compra de instrumentos. Ao proporcionar àqueles e a outros jovens o direito de optar por violinos, violoncelos e contrabaixos, o AfroReggae contribui para atenuar um pouco a falta de oportunidades. Uma olhada mais atenta para a OSB revela o tamanho do desafio. Havia apenas dois negros entre os cerca de 70 músicos profissionais que estavam no palco, uma desproporção como a verificada em universidades e em quase todas as profissões de nível superior.

Há séculos que o Brasil impõe a lógica de fazer com que cada um saiba qual é o seu suposto lugar, um lugar determinado pelo local de nascimento, pela cor da pele, pela renda e grau de instrução dos pais. Anteontem, aqueles músicos de Nova Iguaçu, Parada de Lucas e Vigário Geral ressaltaram que cada um tem o direito de escolher o lugar que deseja ocupar. Eles optaram pelo palco do Theatro Municipal, tomara que voltem muitas vezes para lá, que sejam seguidos por vizinhos e colegas de escola.

Ainda são exceções à regra, o caminho deles não será fácil, mas é importante acreditar que esta mudança tende a ser irreversível. Cabe ao Estado assumir a tarefa de acabar também com esta forma de exclusão: o exemplo e a esperança encarnados naqueles jovens — Tatiane Lima, Samantha Ramos, Marcos Vinícius de Carvalho, Jonathan Santos, Daniel Nunes e Guilherme Carvalho — valem o ingresso para um país bem melhor e mais justo.

Fernando Molica é jornalista e escritor | E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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