Por tamyres.matos

Rio - No restaurante a quilo, vários personagens e uma coisa em comum: mal prestam atenção no que botam pra dentro da boca com o garfo e encontram companhia no almoço pelo celular. Seguram o talher com uma mão e na outra teclam animadamente.

O rapaz bonito usa uma camisa preta de malha sem mangas, amarrou o cabelo num rabo de cavalo, mas não está brega. E tem um quê de Don Juan de Marco, de Johnny Depp, no filme de mesmo nome. Está quase entrando pelo telefone e digita sem parar até terminar a comida.

A feiosa magrela tem pinta de intelectual e fica até bela. A inteligência salva os feios? Eu, que gosto de homens inteligentes, não namorei um fisicamente parecido com o outro. Não aos olhos dos outros, mas aos meus todos com algo em comum: QI elevado. Então acho que sim, essa moça desengonçada que escreve sem parar em seu celular parece estar bem satisfeita com o que lê, parece estar sendo cortejada e se diverte com isso. Faz sucesso com ar de sapiência.

O sujeito de seus 50 anos checa o telefone sem parar, mas, aparentemente, não é tão exigente: vai com a média. Vê uma loura comum entrar e exclama sozinho, pra quem quiser ouvir: “Que loura!” Ela tem os cabelos até o meio das costas, com luzes, usa minissaia de cintura alta verde e camiseta justa branca. É bonita, mas nada demais. Se eu fosse homem, iria preferir as morenas e com mais frescor...

Cada um com seu telefone vivendo através da tela, inclusive eu, que parei para escrever pra você. A vida moderna nos levou a relações que nos aproximam e nos afastam. Nós a observamos, interagimos com alguém do outro lado da linha e até dormimos com os dedos no automático, esbarrando em teclas que mudam nosso status e imagem nas redes sociais.

Que saudade de um bom almoço em família, com comida feita com amor, todo mundo falando ao mesmo tempo, ao vivo, interessado na história do outro, sem querer se levantar correndo, confraternizando... Me passa o suco?! “Com gelo ou sem?”, reage a garçonete, quando desperto e vejo que é hora de pagar a conta.

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