João Batista Damasceno: Podres poderes

O compromisso democrático há de nos fazer querer aproximar daqueles que velam pela alegria do mundo

Por bferreira

Rio - Em 1980, uma bomba destinada a matar jovens num show de música no Riocentro explodiu no colo dos terroristas oficiais, e o Brasil encontrou o caminho para a redemocratização. Outras haviam explodido: na Câmara de Vereadores, na ABI, na OAB, em bancas de jornais e contra o bispo da libertação Dom Adriano Hipólito. Todas eram atribuídas a terroristas de esquerda, os vândalos da época. A bomba do Riocentro desnudou o regime tal como o desaparecimento de Amarildo desnuda a truculência do Estado e a política de segurança nas áreas militarmente ocupadas. Aquela bomba acendeu o pavio do desejo de liberdade e redemocratização.

O ano de 1984 foi emblemático. Em 10 de abril, um comício pelas ‘Diretas Já’ reuniu um milhão na Candelária. Em outros comícios registraram-se atos de destruição, que todos sabíamos eram praticados por agentes do regime, disfarçados de manifestantes. O filme ‘Jango’, de Silvio Tendler, tendo como trilha sonora a música ‘Coração de estudante’, de Milton Nascimento, se converteu no hino da juventude. No mesmo ano Caetano Veloso nos deu a música ‘Podres poderes’, onde expressava com veemência sobre os ridículos tiranos, a estúpida retórica e os capatazes com suas burrices que fazem jorrar sangue. Concluiu dizendo que “tudo é muito mau...”, mas lembrou Oswald de Andrade, para quem nunca fomos catequizados, pois fizemos o Carnaval. Liricamente Caetano questionou se “apenas os hermetismos pascoais e os tons, os mil tons; seus sons e seus dons geniais nos salvarão dessas trevas”, numa clara referência a Hermeto Pascoal, Tom Jobim e Milton Nascimento.

Neste ano a Constituição completa 25 anos, e jovens dessa idade estão nas ruas para efetivar a democracia escrita e não efetivada. Mas os podres e mascarados poderes insistem em proibir as manifestações, criminalizar a juventude e tentar impedir a liberdade, tal como loucos que pensam poder impedir o nascer do sol usando tapa-olho. O compromisso democrático há de nos fazer querer aproximar daqueles que velam pela alegria do mundo.

Doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito. Membro da Associação Juízes para a Democracia

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