Milton Cunha: Primeira lição: Maltratar o povo!

Qual seria o problema de colocar os futuros gestores da cultura estadual, tão esforçados, dentro do enorme espaço?

Por bferreira

Rio - E já que o serviço público não é de graça, porque pago com nossos suados impostos, por que ele tem esta aura de ser um favor que nos fazem? Mais que isto: no Curso de Gestores Públicos, da Secretaria Municipal de Cultura do Estado do Rio, a primeira lição foi como maltratar o público! Como não tenho nenhum plano político, só acadêmico, meu interesse era comparar as metodologias, comparar o perfil dos alunos para descobrir se interesses culturais dos alunos do estado são os mesmos que os nossos, das Pós-Graduações da Veiga e da Cândido, onde ensino. Enfim, eu queria comparar o público e o privado.

Uma das alunas, a mulata Luzinete, minha parceira da quadra de Mangueira, economizou de um lado para matricular-se num particular (inacessíveis para a grande massa) e combinamos de ir ao Teatro João Caetano para confirmar nossas inscrições no curso dito grátis (de boas intenções o inferno está cheio).

Minha gente, não consegui nem entrar, desisti na calçada. Cheguei às 7h30 da manhã e vi uma fila dando volta, rumo à portinha lateral do Foyer, o que muito me emocionou porque isto comprova que interessados que não podem pagar, ah, isto tem.

Fiquei perguntando por que aquela gente-gado tinha que ser exposta na calçada. Qual seria o problema de colocar os futuros gestores da cultura estadual, tão esforçados, dentro do enorme espaço? Medo de que tinham os organizadores? Falta planejamento quando o assunto é quem não desembolsou na hora? Parti para tomar café na ruela das prostitutas, para fazer hora e deixar a fila diminuir, porque a palestra de abertura tanto me interessava, ouvir as palavras da Sra. secretária, Adriana Rattes, e suas perspectivas de investimentos e seus editais. Acreditem, às nove a fila ainda estava grande e as criaturas estavam na chuva, que tinha começado forte, muitos sob sombrinhas, pisando nas molhadas pedras portuguesas. Eu, do alto de meu glamour, disse a mim mesmo: “Pera lá, ser humano, tudo tem limite. Este curso deve ser bacanérrimo, mas meia volta, volver, porque nem seu guarda chuva Chanel você trouxe”.

Como fui menino pobre e mil vezes estive nestas filas indignas, hoje que posso me dar algum luxo, cinquentão, quando vejo que a coisa é ruinzinha, baixa em mim a Odete Roitman, aquela que encarnava o desprezo pelas coisas brasileiras. Só que eu miro nos poderosos, os que estão ali momentaneamente investidos de poder e submetem os interessados à violência do desconforto. Eu, que posso, peguei o carro e fui embora pra Pasárgada. E quem não pode?

Isto é um barato (?) que sai caríssimo!

E-mail: chapa@odia.com.br

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