Por bferreira
Rio - Vendo Mateus Solano de cuequinha vermelha, rebolando na sala suburbana de Márcia, com flor de plástico na cabeça, me lembrei da peça ‘Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá’. Nós já tínhamos bichas marcantes na literatura, no teatro, no cinema. Na TV ela estava presa aos humorísticos, tipo Seu Peru, mas aí juntou na novela das 9 autor, ator, diretor, coragem da Globo, e o milagre se deu: já temos a viúva Porcina do terceiro milênio, e ela se chama Félix, a bicha pintosérrima que salgou a Santa Ceia. Defronte do clássico, já sabemos que, se Regina Duarte nunca se desgrudou do imaginário popular de sua personagem que foi sem nunca ter sido (e já se vão 30 anos), assim como Beatriz Segall será sempre Odete Roitman, daqui a décadas vamos falar que em um dia existiu a Félix.
Este chiclete grudou no grande ator, e tchau e ‘bença’. O primeiro sutiã a gente nunca esquece. Além da virtuose individual, qual o diferencial de Félix? A profundidade. Chique, mimado, inteligente e ferino, no fundo dos olhos denuncia a dor de ser rejeitado, que não tem dinheiro que compre ou apague. Ao lado do glamour e da graça, as lágrimas da desgraça de ser o que o pai não desejou. E, desta oceânica dor, vai pulando de maldade em maldade, demonstrando que tão mal quanto ele são os outros, cujos papéis heterossexuais são mais aceitos e ajustados.
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Quem imaginaria um veado reinando protagonista na hora do jantar no Acre ou Piauí? E de um sucesso retumbante? Acho que o público, além de se divertir horrores, se intriga com o drama humano e pequeno da bichinha que envergonha os adultos, e que existe na vizinhança dos igarapés amazônicos ou na Avenida Paulista. Nós conhecemos aquela pintosa e sempre fomos seduzidos pelo charme engraçado e dor escondida que ela apresenta. E torcemos para que ela supere tudo isso e não se deixe levar pela torrente de vingança. Desejamos só a delícia da maricona que tem coragem de dizer o que todos acham mas preferem segurar, porque na vida não precisamos ser tão sinceros. Por ser ficção, jogar o bebê na caçamba de lixo pode ser o princípio da redenção.
E quando ele desabrochar em amor ao próximo, sem deixar de detonar este próximo, aí fará o que as cenas de casamento e beijo na última cena faziam antigamente: eletrizavam. Devemos muito como sociedade às novelas, que trazem temas ravissantes para o bar da esquina. Já somos noveleiros que exigimos mais que um par de mocinho e heroína românticos. E Carminha em 2012 e Felix em 2013 são provas de que vilões da modernidade apresentam nuances sedutoras, são dignos de pena e compreensão. 2013 foi o ano em que Félix prestou um serviço ao Brasil, colocando gays iguais aos personagens héteros, contraditórios porque humanos.
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