Por thiago.antunes

Rio - Quem me conheceu adulto pode não acreditar, mas confesso que eu, criança, era ainda mais complicado. Cultivava estranhas implicâncias e obsessões. Lembrei uma delas outro dia, ao ver que a TV reprisava ‘Cinderela’. Assistia ao filme da Disney, lá pelos meus 6 ou 7 anos, quando notei um problema de roteiro: se depois da meia-noite carruagem voltava a ser abóbora e cavalo retornava à condição de rato, por que o sapatinho de cristal ficava do mesmo jeito? Parece besteira, mas o detalhe me incomodou e atrapalhou minha relação com o filme.

Por volta dos 8 anos, achei esquisito ver, numa novela, um personagem lembrando de fato ocorrido em capítulo anterior, uma cena em que ele fora mostrado pela câmera. O problema é que, na recordação, ele se via na imagem, seu rosto aparecia na tela.

Ora, a menos que estejamos diante do espelho, nós, quando falamos, não nos vemos, olhamos para nossos interlocutores. Na hora do flashback, ele teria que se lembrar do que observara a partir do seu próprio ponto de vista. Seria inviável que sua memória tivesse registrado algo que, na situação original, ele não observara: a cena vista pela câmera.

Pior do que ter ficado encasquetado com isso era perceber a surpresa de meus amigos quando tentava explicar a tal incongruência narrativa. Os sites dedicados a marcar erros de continuidade em filmes mostram que eu não estava sozinho. Cobramos da ficção uma verossimilhança absoluta, não admitimos qualquer erro. Talvez esse grau de exigência seja uma forma de compensar as imperfeições cotidianas, as surpresas e os absurdos do dia a dia.

Seria complicado para um romancista admitir que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso fosse se aliar a Antônio Carlos Magalhães, que o PT viesse a se transformar em fiador da dinastia Sarney. A ficção, mesmo a mais delirante, costuma ter pudores inexistentes na vida real. Em nossas vidas, volta e meia somos surpreendidos por situações absurdas, sem sentido.

Casos que nos assustam, que nos fazem ter saudades de uma ficção rasteira, previsível e lógica, aquela que nos faz seguros, que apresenta transgressões controladas, que nos ajuda a barrar mudanças radicais e a manter todos os pingos nos is. Nem sempre estamos dispostos a tentar olhar um fato por outro ângulo, a admitir que pode ser bom tropeçar num improvável sapatinho de cristal deslocado de um enredo perfeito. Precisei crescer para saber que, ao atropelar a lógica, o roteirista de ‘Cinderela’ construiu uma história mais próxima da vida como ela é.

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