Por nara.boechat
Publicado 03/02/2014 00:13 | Atualizado 03/02/2014 00:14

Rio - Longe de ser uma exceção, Luiz Fernando Costa, o condutor do caminhão que derrubou a passarela da Linha Amarela, é quase um exemplo do motorista carioca. Não o motorista que deveria servir de exemplo, mas o que representa nosso jeitão de circular pela cidade. Atire o primeiro celular quem nunca falou ao telefone enquanto estava ao volante ou que jamais fechou cruzamento ou avançou sinal ou parou na calçada.

A lista de infrações cotidianas só não é maior do que tolerância social com as repetidas violações às regras básicas do trânsito, aquelas que deveriam garantir um mínimo de civilidade nas ruas. Ninguém — nem eu — gosta de respeitar limite de velocidade, de ser obrigado a deixar o carro na garagem depois de tomar uns três chopes ou de dividir uma garrafa de vinho no jantar. Nenhum limite — no trânsito ou na vida em geral — é agradável. Como Manuel Bandeira, sonhamos com a liberdade absoluta, com prazeres infinitos, com uma existência que seja uma eterna e impune aventura inconsequente. O problema, como disse o sábio Garrincha, é combinar isso com os russos, ou seja, com as milhões de outras pessoas que também se sentem no direito de fazer o que lhes dá na telha.

O direito do outro é que joga de volta para a estante dos desejos irrealizáveis a Pasárgada de cada um de nós. É desolador admitir, chato mesmo, mas não seria possível que todos andássemos por aí desrespeitando todos os sinais, circulando pelos acostamentos das estradas, parando em todas a calçadas e jogando todas as nossas frustrações e expectativas no pé que pressiona o acelerador. Até porque, se todos fizéssemos isso, ninguém sairia do lugar, haveria uma espécie de engarrafamento final, com todos os cruzamentos ocupados, colisões em cada esquina e atropelamentos em série. Ninguém tem direito de, com sua irresponsabilidade, colocar em risco a vida de outras pessoas.

A cada dia ensaiamos no trânsito a interminável disputa entre o agradável impulso da vida e a terrível e castradora civilização, entre o Carnaval e a Quaresma, entre a descompromissada farra noturna e os deveres do casamento. Mas a maioria dos motoristas cariocas se acha capaz de encontrar a quadratura do círculo, um jeito de conciliar o inconciliável, de torcer pelo Flamengo na arquibancada do Botafogo. A caçamba levantada do caminhão assassino é quase um carro alegórico que, todos os dias, desfila pelas ruas e revela o egoísmo e a bestialidade de quem acredita que sinais fechados foram feitos apenas para os outros.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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