Por bferreira

Rio - Acabou definitivamente o tempo da delicadeza. Em todos os sentidos e em quase todos os momentos. Você está no elevador, e a mulher elegante entra. Ela e sua bolsa de grife quase derrubam você. Nenhum pedido de desculpa. Nenhum constrangimento. É como se você fosse invisível ou estivesse ali para atrapalhar o caminho dela, soberana, dona do pedaço. Você vai entrar no estacionamento, dá a seta, vai em direção à entrada e quase morre de susto porque o carro que estava atrás de você te ultrapassa e entra na sua frente, quase provocando um acidente, mas ganhando a preferência da entrada. Isto sem falar nas ultrapassagens diárias dentro dos túneis, na autoestrada, tudo muito disputado, muito deselegante. É o tempo do Eu.

Em primeiro, em segundo, em terceiro lugar e em todos os lugares da fila afetiva ou econômica. O mundo é dos espertos, e a regra é satisfazer suas vontades imediatamente. O outro não interessa. O outro não existe ou, se existe, é só para você ganhar dele. Na fila do supermercado, do banco, da sorveteria, na livraria, não importa o lugar... E isto vale para todas as classes sociais mas é, ou me parece ser, um pouco pior quanto mais dinheiro ou poder a pessoa tem ou pensa que tem. Outra marca deste tempo é ter opinião formada sobre tudo e todos. Há uma crueza nas opiniões, uma rigidez e rapidez nas avaliações que assustam. Antigamente quem falava mal dos outros era exceção. Vez por outra a vida do outro era o assunto. Agora é regra. O comum é esculhambar o outro.

Mesmo que o outro nem saiba do que está sendo acusado. Ajudar o outro, então, nem pensar. Porque mais na frente pode virar contra você. Recentemente aprendi que não se deve indicar nem apresentar ninguém para ninguém. Tudo pode virar contra você no minuto seguinte. O momento é de relações superficiais, tempo de fazer ouvidos moucos. Ou de ser malabarista para escutar o que o outro diz do um, sem concordar nem discordar, sem emitir opinião, sem se envolver diretamente. Nem indiretamente. Um sentimento de estar sem ter estado. Será que o “normal” vai ser se manter numa distância defensiva, se protegendo quase naquele clima de filme americano, “você tem o direito de ficar calado... tudo que disser pode ser usado contra você”?

Outro sentimento do momento é o ressentimento. Ou será inveja? Nem digo da casa, do carro, da joia. É mais do prestígio e de vitórias pessoais, do tipo que não são compráveis. Não se esconde mais o rancor. Mas, nestes tempos em que vivemos, as opiniões estão envolvidas numa pseudobondade, embrulhadas numa aparente generosidade, expostas na medida certa para parecer do bem. Se são realmente do bem é outra história.

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