Por bferreira

Rio - A Polícia Militar se empenha em explicar o que se sucedeu com a auxiliar Cláudia Ferreira no Morro da Congonha, em Madureira. Nada do que for dito será capaz de justificar tamanha barbárie, ou “repugnância”, nas palavras do governador Sérgio Cabral. Estarrece mais ainda enterrar uma vítima inocente meses depois de vir à tona caso tão escabroso, também envolvendo PMs: o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, na Rocinha.

Numa avaliação superficial, sobressalta, nas duas tragédias, um criminoso desdém para com o cidadão. Escrutinando melhor as histórias, escancara-se o horror. No episódio de Amarildo, surgiram fortes indícios de corrupção policial, com abuso de poder, ocultação de provas e sumiço de cadáver. Praticamente todo o efetivo da UPP no dia em que o pedreiro foi detido envolveu-se no crime, seja por negligência ou por cumplicidade.

Não é possível afirmar de quem partiu a bala que feriu Cláudia, pois o projétil não foi encontrado. Mas, de cara, rebateu-se a versão da PM de que havia tiroteio, e hoje O DIA informa que a auxiliar foi atingida de frente. Será custoso descartar os indícios de que a polícia chegou atirando, pré-julgando os que lá estavam como se todos fossem condenados à morte. A barbárie não terminou ali, com a chocante cena de Cláudia — não se sabe se viva ou não — sendo arrastada no asfalto. A vida humana nunca valeu tão pouco. Mas vindo de policiais?

A sociedade, então absorta nos protestos de junho, demorou a se dar conta da brutalidade contra Amarildo. Logo viu o tamanho do absurdo e cobrou, semanas depois, resposta do Estado, que mudou o comando da UPP da Rocinha e prendeu os oficiais em turno naquela noite fatídica. Em memória de Cláudia e de sua família, é preciso o mesmo empenho — para punir os culpados e para que as forças policiais extirpem de vez esse comportamento que beira o vandalismo. Não se pode tolerar haver um terceiro mártir da estupidez.

Você pode gostar