Por bferreira

Rio - Durante anos, no que tocava às práticas mais tenebrosas da ditadura, o Brasil convivia com duas verdades. Da parte dos militares, encobriam-se crimes, torturas e perseguições. Já a sociedade tida como “subversiva” relatava horrores nos porões do regime de exceção. As duas versões colidiam por anos, e o esclarecimento dos fatos acabou eclipsado pela Anistia. No 50º aniversário da imposição do golpe, emergiram testemunhos de dor. Histórias que, a partir de agora, podem encontrar o caminho da verdade e da justiça, com a promessa das Forças Armadas de investigar abusos em suas unidades.

A decisão é emblemática, pois mostra maturidade e consciência do meio militar. A abertura dos inquéritos também é grata reverência à Comissão da Verdade, a despeito das controversas críticas de “parcialidade” na condução dos trabalhos, uma meticulosa e delicada escavação nos subterrâneos do país. Revirar a história, se arrisca reavivar pesadelos, mostra ao Brasil Democrático de Direito de hoje o que se deve evitar para não voltar àquele Estado intimidador.

A comissão militar comprometeu-se em apresentar resultados em um mês. Prazo exíguo para a elucidação de tantas denúncias — a não ser que já exista levantamento prévio ou registro de tudo o que se cometeu em nome da pátria. Seria decepcionante se este anúncio virasse bateção de bumbo inócua.

De todo modo, é fundamental que se dirimam todas as dúvidas e se faça justiça, porque de fato há máculas indeléveis nos 21 anos do regime de exceção, e país algum será plenamente civilizado se tentar esconder as manchas. É preciso assumi-las e cuidar para que não voltem a sujar.

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