Karla Rondon Prado: Cheios de amor pra dar

Nunca tivemos essa importância cultural. Não é a descoberta do Brasil... Somos o país do momento

Por bferreira

Rio - A pessoa que é cheia de vida é cheia de amor. Ou seria o contrário? De fato ela espera o melhor, vê tudo com bons olhos. Até, e principalmente, a aproximação de estranhos.

Quando o gringo se aproximou e começou a fotografar a criança vestida de caipira, não me importei. Lembrei de quantas vezes invadi a privacidade alheia em viagens, sem me importar com isso, em nome da imagem. Registrar a cultura, o momento, poder eternizar um mundo tão distante do seu. Fotografar como se não houvesse a chance de voltar, e não há. Serão outros sorrisos, outras roupas, outras pessoas.

Quando a gente viaja, a alma se entrega, é leve. Não conhecemos nada nem ninguém, nos arrumamos todo dia, pois todo dia é dia.

Na feira multicolorida, os feirantes fazem três por R$ 5. Eles passaram a madrugada montando as barracas com seus toldos coloridos e daqui a algumas horas vão desmontar. O casal estrangeiro passa maravilhado, olhando as sardinhas, fazendo fotos da barraca de peixe em vários ângulos. E olhando o povo.

O cara da barraca parece que foi contratado: tira do isopor, sob um sol escaldante, um peixe de uns 12kg. Hoje não sou viajante, sou povo. E percebo o homem abaixando a câmera depois de nos flagrar, eu e meu bebê, aceitando e provando bananinhas ouro.

Estamos num papel de importância cultural que nunca estivemos. Não são os portugueses descobrindo os índios, o Brasil. Somos o país do momento. Crescemos e aparecemos. Na Lagoa e em vários cantos lindos da cidade, a prefeitura espalhou molduras para que as pessoas se fotografem e registrem com a hashtag #instario. Vou lá e poso, claro. Depois, num deque à beira d’água, brinco com meu filho até ser abordada pela turista de Recife, com seu sotaque característico: “Tem bluetooth? Fiz umas fotos suas com o neném”. Digito a senha, entrego meu celular para a estranha, que me passa as imagens em segundos. Não tenho medo, não tenho nada de errado nesta semana que começa.

Vai ter Copa. E como comentou uma amiga outro dia, vai ter Copa junina. Dia de Santo Antônio, São João, São Pedro, aniversário do papai. Somos o centro do mundo. Temos quentão, canjica, salsichão. Terra de Zico, Romário, Rivaldo e Neymar. Fica aqui o meu protesto: é muito feio não respeitar essa festa. Vamos ser como somos: festivos e cheios de vida. Ou seria de amor pra dar? Esperamos 64 anos pra ver isso. Eu espero há 42. Deixa de bobeira, deixa de bobagem...


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