Por felipe.martins

Rio - Ou 6.720 minutos, ou 4,6 dias ininterruptos, sem contar as prorrogações. Este será o tempo que passarei diante da tevê vendo os 64 jogos da Copa. Espero ter melhor sorte que os três chineses que morreram de fome e falta de sono, sem desgrudar da telinha, vítimas dos fusos horários. Trabalhavam de dia e viam os jogos noite adentro.

Uma das coisas que me impressionaram na cobertura da tevê nas partidas da Copa foram as cenas que mostravam o público. Havia mais pretos no campo do que nas arquibancadas. Nelas, obviamente, os poucos que apareciam eram exceções: pretos ricos, que podiam pagar os absurdamente caros ingressos da Fifa.

Mesmo se me dessem de graça ingressos para a Copa, não aceitaria. Por melhor que seja a localização, você vê as partidas de um único ângulo. Pela tevê, a visão é total: centenas de câmeras, tomadas aéreas, closes em câmera lenta dos lances, a angústia dos goleiros e o êxtase dos artilheiros, repetição de jogadas, tira-teima para saber se a bola ultrapassou ou não a linha do gol, um show de tecnologia. E isso no sofá da sala, com um isopor cheio de cervejinha gelada e um sanduíche de mortadela no capricho.

Para cronistas, a Copa é um prato cheio. Assunto é mato, digo — já que estamos falando de campos de futebol —, grama. No futuro, astronautas galácticos, ao sobrevoarem este planeta cuja vida deve ser varrida pelos tsunamis e terremotos em menos de cem anos, nunca decifrarão o enigma daquelas gigantescas ruínas. Ficará para sempre o mistério das construções em forma de pneus. Nunca descobrirão para o que serviam (nem nós, se o Brasil não ganhar a Copa).

Nunca entendi por que os estádios são redondos, já que os campos são retangulares. Com exceção do Itaquerão, que em recente pesquisa foi considerado o estádio mais feio do Brasil. Por falar nisso, tenho notado que os locutores esportivos têm usado a palavra arena em vez de estádio. Faz sentido. Nas arenas onde se pratica o que os antigos chamavam de ‘rude esporte bretão’, uma entrada com os cravos da chuteira atingindo de propósito o joelho de um adversário é punida apenas com uma advertência, um raro cartão amarelo, ou, nos casos mais graves, com cartão vermelho e expulsão. Fora do campo, o agressor seria preso por tentativa de homicídio.

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