João Batista Damasceno: Entre vaias e aplausos

Consagrou-se o costume de que não se deve aplaudir os hinos nacionais ao final de sua execução

Por O Dia

Rio - As vaias dirigidas à presidenta Dilma Rousseff e o coro em xingamento durante a abertura da Copa, em São Paulo, ecoaram no mundo político como se fosse acontecimento sem precedente no campo do esporte ou da política. O mesmo coro já fora dirigido a um apresentador de televisão, notável por seus comentários inapropriados, e foi tratado como expressão da irreverência do torcedor.

Consagrou-se o costume de que não se deve aplaudir os hinos nacionais ao final de sua execução. Isto porque quem aplaude, porque gosta, tem o direito de vaiar, se não gostar. Daí é que gostando ou não gostando, costuma-se manter postura respeitosa, sem expressão do sentimento. As autoridades brasileiras têm dado demonstrações de não compreender as regras do campo nos quais estão inseridas.

A política econômica desenvolvida pelo governo federal pode estar agradando aos bancos e ao agrobusiness, mas é um desastre para os trabalhadores. Não são política econômica os milhões de benefícios do Bolsa Família, no valor de R$ 77, limitado a R$385 por família; é misericórdia diante de extrema necessidade. Mesmo os pequenos e médios agricultores começam a sentir os efeitos danosos de tal política, ante a suspensão dos contratos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), que o Banco do Brasil celebrava.

A política de direitos humanos é um desastre. O ministro da Justiça, que chefia a Força Nacional, instituída sem previsão constitucional ou legal, se alia aos mais retrógrados executores de ‘política de segurança’ contra a sociedade.

O governo federal tentou capitanear a euforia com a Copa do Mundo. Em razão disto, gastou dezenas de bilhões de reais num evento que somente aos cartolas interessa. Ainda que o futebol promova a mobilização da sociedade, não há razões para aplaudir os governantes, ante o custo social para o evento.

Já se disse que no Maracanã, símbolo do futebol brasileiro, se vaia até minuto de silêncio. Isto vale para os demais estádios. Além disto, o público que vaiou a presidenta não era de eventuais beneficiários de suas políticas sociais Bolsa Família ou Brasil Sorridente, nem os banqueiros e grandes produtores rurais. Se havia quem tivesse razão para aplaudir, estava na tribuna da presidenta, e não nas galerias.

Autoridades quando idealizam aplausos podem se decepcionar. O ministro Joaquim Barbosa, depois de ofender o então presidente do STF, foi tomar chope do Bar Luiz, tradicional local de boemia. Saiu de láaplaudido. Parece ter gostado e relatou a Ação Penal 470, de olho na mídia e no sentimento popular.

Acabou sob os insultos de um advogado que justamente reclamava que seu recurso fosse julgado com prioridade, como determina o regimento. Quem se conduz pelo desejo de aplauso pode colher diversa manifestação de cordialidade.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito

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