Siro Darlan: Adeus, Mestre Ubaldo

Nem a derrota de 7 a 1 para Alemanha nem a lanterna que o Flamengo está amargurando me deixaram tão triste quanto a perda do iluminado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro

Por bferreira

Rio - Nem a derrota de 7 a 1 para Alemanha nem a lanterna que o Flamengo está amargurando me deixaram tão triste quanto a perda do iluminado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. O Leblon, meu bairro de coração, e a sempre alegre Itaparica amanheceram muito tristes com essa perda tão lamentável. Quem iluminará minhas manhãs de domingo com suas crônicas inteligentes e irônicas? Acabo de ler seu hilário último artigo, ‘O correto uso do papel higiênico’, onde faz ironias com a mania de proibições do poder público brasileiro, sempre comparável com a imortal Sucupira de Odorico Paraguaçu.

Em sua fina ironia, o mestre dá uma escorregada quando critica a Lei Menino Bernardo, que ele chama de Lei da Palmada, mas reconhece que sua descrição é exagerada. Certamente a menção é apenas para compor suas bem lançadas críticas à mania de proibicionismo, porque, com relação à violência contra crianças, sabia o escritor querido que é preciso combater essa covardia. Evidentemente, como reconheceu Ubaldo, a lei não prevê sanção aos pais violentos, mas dentro de sua característica pedagógica faz com que troquem o chinelo no bumbum e os beliscões pela palavra, terreno que João dominava como ninguém.

“Vamos botar de lado os entretantos e partir para os finalmentes.” Nessa terra que ele deixou chorosa, está difícil continuar manifestando o pensamento como ele fez. Hoje quase nada se pode fazer porque tem sempre uma lei constrangendo. Abre-se mão do processo educativo em troca de um regime repressivo onde, como conclui em seu último artigo, falta pouco para que sejam baixadas normas para os relacionamentos sexuais. Bem, normas pode não haver, mas comportamentos sociais abomináveis são noticiados todo dia. Na Ipanema de tantas transgressões, duas jovens foram espancadas porque se beijaram. O beijo, sinônimo de afeto que também já sinalizou traição, agora é motivo de linchamento.

Manifestações públicas, meu caro Ubaldo, você que viveu como eu o tormento da ditadura militar, também estão proibidas. Naquele tempo, se insistíamos, éramos espancados ou torturados, e muitos desapareceram. Agora é mais sofisticado: você é taxado de anarquista e vândalo, e sua palavra é cassada por mandados de prisão. Você deixa de ser um cidadão no exercício do direito constitucional à livre manifestação do pensamento, e como não podem prender o pensamento, que “parece um coisa à toa, mas como é que agente voa quando começa a pensar”, prendem o ‘terrorista’ que ousou divergir da ordem pública e social.

Até mesmo a tribuna que usava para lecionar aos seus fiéis leitores se transformou em suporte para correntes que tentam acorrentar o pensamento, mas você, sempre brilhante, sabia driblar e escrevia o que sua consciência de grande brasileiro ditava.

Esquecem profissionais da mídia que, assim como canta o poeta Eduardo Gomes da Costa no caminho com Maiakóvski, depois de calarem os manifestantes, calarão os profissionais da mídia; depois seremos nós, os juízes, se já não estivermos sendo os primeiros da lista; os professores, já calados há muito tempo com seus parcos salários e péssimas condições de trabalho, “até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”.

Siro Darlan é desembargador do TJ e coordenador do Rio da Associação Juízes para a Democracia

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