Milton Cunha: Temporada de caça

Para o bem e para o mal, os grupos eram iguais: sintonizados, sofridos, festivos, donos de seus destinos

Por bferreira

Rio - Eles vinham descendo a Santa Clara na radiosa tarde desta semana que passou: uma pequena horda primitiva, que vista de longe, com seus andrajos, carrinhos de supermercado, tudo configurava um belo quadro que qualquer diretor de arte da ficção teria o maior trabalho para compor, tal o corte cirúrgico da montagem de acessórios, figurinos. Saquei: era o grupo que estava morando no buraco do Bairro Peixoto, Copacabana, a passagem chamada Moacir Derinquem, e que tinha sido expulso (poder público? milícia? moradores?). Justamente quando a chuva iria começar, e eles ali, no tempo. Por outro lado, sempre que eu passava no buraco, o cheiro da cova da onça, a jaula do felino no Museu Emilio Gueldi, da Belém do Pará de minha infância — o mesmo odor de bicho que não toma banho ou talvez das peles dos corpos confinados num lugar durante algum tempo. Confusão de referência na minha memória.

Eram quatro mocinhas e seis rapazinhos, todos negros, em diversos tons. Uma usava uma calça de lycra com escandalosa estampa, outra empurrava seu carrinho de bebê. Um trazia o grande colchão enrolado no alto da cabeça, equilibrando. Ao mesmo tempo que sorriam e estavam soltos, brincando, típico da idade, olhavam assustados para nós, pois sabiam que, juntos, formavam um exército assustador, se assustadores fossem, para além de nosso preconceito. Mas na disputa que a cidade grande é, não dá para ficar exigindo. É tiroteio, não dá tempo, a vida empurra e salve-se quem puder.

No domingo, esperando a peça de teatro no Fashion Mall, eu estava tomando um café quando vi o grupo das quatro hienas na mesa em frente. Louras, topete de laquê “sou rica”, metais dourados em botões, correntes, bijoux, fuseaux de elastano poderosas, alguma estampa de onça, bolsas e mais bolsas de compras, alegria nas caras de fuinha que todas têm. E eu ali, me convencendo de que viver a modernidade é viver encontrando estas manadas, alcateias, cardumes de tribos urbanas que se contradizem, se completam, são a cara e a coroa da mesma moeda. Certas horas leoas devoram antílopes, búfalos inesperados aparecem, girafas pescoçudas passam. Do meu cativo lugar de veado imperial, observo a dança dos grupos na grande selva de concreto. Somos todos vítimas e algozes, porque a indiferença em si é poderosa tomada de atitude. Para o bem e para o mal, os dois grupos eram iguais: sintonizados, sofridos, festivos, donos de seus destinos. O problema é quando eles se enfrentam pela sobrevivência...

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