Fernando Scarpa: Dependentes do engano

No amor, em alguns encontros, não em todos, querer se enganar é tiro e queda

Por bferreira

Rio - Nem tudo que reluz é ouro! As aparências não enganam, enganam só quem quer se enganar. Estranho isso? Estar no lugar de ser autor de um autoengano, querer ser enganado?

Sim, existem os que querem se enganar a qualquer custo frente a pessoas, ocorrências e fenômenos da vida. Vejamos?

Falando em fenômeno, não dá para escapar da fenomenologia de Edmundo Husserl. Uma área do saber que estuda a aparência deles, o sentido. A aparência do fenômeno não revela o fenômeno em si, apenas uma imagem, uma ideia de seu aspecto. Quantas coisas acontecem na vida e, num primeiro momento, parecem ruins, mas são boas e vice e versa? Nem todo mal é mau!

Você já foi vítima de acreditar que está fazendo um excelente negócio, repleto de facilidades? Já se imaginou muito esperto aproveitando a excelente oportunidade que se mostrava diante de seus olhos? Acredito que sim. Ao mesmo tempo, sentiu também a tremenda sensação de que aquilo, tão repleto de facilidades, não era possível? Pois é. Era um mau negócio com cara de bom. E, nessa hora, é inevitável não lembrar de que “laranja madura na beira da estrada ou está bichada ou tem marimbondo no pé”. Lembrou, mas foi em frente, perdeu e se arrependeu? Quis se enganar de todo modo. Tudo mostrava que tanta facilidade não seria possível, mas, mesmo assim, foi em frente, buscou o engano, não foi enganado.

Saindo do universo dos negócios e entrando no mundo pessoal, conhecemos pessoas encantadoras, sedutoras, gentis ao extremo. Ficamos fascinados por elas na hora. Sabemos intimamente que não pode haver alguém assim tão perfeito. Os olhos ficam cegos, queremos a perfeição a todo custo. Embarcar no que queremos que seja e que alguém sugere ser, é fascinante. Pronto, confiamos e estamos a um passo da desilusão. Alguns são mais hábeis, levam mais tempo para nos mostrarem quem são. Mesmo assim, percebemos mas não queremos acreditar e admitir que fomos ingênuos. Tudo estava mais uma vez perfeito demais para ser verdade. A decepção outra vez é inevitável.

No amor, em alguns encontros, não em todos, querer se enganar é tiro e queda. Para começar, idealizamos o outro, o revestimos de perfeição e encanto. Queremos o par perfeito, aquele que nos completa. A venda nos olhos encobre tudo que as pessoas próximas veem e teimamos em negar. Avisos não faltam. Depois de muito custo, sofrimento e negações, acabamos vendo o que não queríamos e que estava diante de nós todo o tempo.

Em tempos de eleição, mais uma vez a mesma situação envolve aparência e “necessidade” de engano. Todos os candidatos se apresentam como ideais. Suas promessas são tentadoras para nossa necessidade de engano. No íntimo, sabemos que são políticos. Estão em campanha, prometem tudo e depois correm do compromisso. Ainda assim, votamos e esperamos que venha a ser o ideal encarnado da verdade: o que promete e cumpre. Não adianta, a desilusão vai bater na porta. Governar é fazer acordos, trocar favores, se comprometer e ir se distanciando dos compromissos de campanha assumidos. Cobrar depois de nada adianta, sabíamos de tudo desde o início, só não queríamos ver. A realidade? Pura invenção do desejo de perfeição. Ficam as questões: quem enganou quem? Quem quis ser enganado? De quem é o engano? Vale pensar.

Fernando Scarpa é psicanalista

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