Daniel Souza: Planejar mais 20 anos

Betinho não viu o combate a fome virar programa de governo, nem conheceu o Armazém da Ação da Cidadania, mas sei que, em algum lugar, ele está sorrindo

Por bferreira

Rio - Na Ação da Cidadania a gente costuma dizer que a missão de toda ONG é se autoextinguir. Ou seja, trabalhar tão bem pela sua causa até atingi-la, e assim perder sua razão de existir. Tivemos que refletir sobre isso quando completamos 20 anos e nossa principal luta, a campanha contra a fome, virou política pública.

Partimos, em 1993, de realidade inaceitável: 32 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza. Esses números mobilizaram todo o país numa época em que redes sociais não existiam, e em duas décadas foram arrecadadas 30 mil toneladas de alimentos (3 milhões de cestas básicas) e 1,8 milhão de brinquedos e livros. Mais importante do que estes números foi colocar o grito de indignação na boca de todos os brasileiros e pressionar os governos.

Pelo caminho perdemos pessoas fundamentais na nossa história, como o Betinho e o Maurício Andrade, semelhantes na magreza e na força de vontade.

Coincidência ou não, o momento de se autoextinguir (ou se reinventar) aconteceu quando a Ação completou 20 anos e precisou planejar os próximos 20. É o que fizemos nos últimos dois anos, não só no Rio de Janeiro, mas nos 15 estados onde a Ação atua. Não foi difícil enxergar o caminho a seguir, pois é o desdobramento natural do dar o peixe: ensinar a pescar. Se antes os comitês da Ação apenas recebiam os alimentos do Natal Sem Fome, hoje eles acompanham e cobram ações concretas dos três níveis de governo.

Aproveitando o Armazém da Ação da Cidadania, no Porto do Rio de Janeiro, mudamos o foco para capacitação e formação, principalmente dos jovens. Atuamos em rede com os comitês de 22 municípios do Rio, e a população do nosso entorno, na Gamboa. Nos outros estados, cada coordenador incluiu este novo desafio entre os tantos que já enfrentam regionalmente.

Como implementar este novo norte? Começando em casa. Ou melhor, neste fantástico armazém, construído pelo André Rebouças, o primeiro engenheiro negro do Brasil. Ele gostaria de saber que aqui teremos o Memorial da Diáspora Africana, lembrando os mais de 500 mil escravos que desembarcaram no Rio de Janeiro. Também teremos um espaço cultural multiúso para 600 pessoas, e o maior espaço de educação, inovação e empreendedorismo digital da América Latina, cujo objetivo é dar aos jovens as ferramentas de ponta que os permitam transformar o mundo.

Depois de 20 anos atuando no emergencial, chegou a hora do estrutural. Betinho não viu o combate a fome virar programa de governo, nem conheceu o Armazém da Ação da Cidadania, mas sei que, em algum lugar, ele está sorrindo.

Daniel Souza é coordenador da Ação da Cidadania

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