Editorial: Impopulares benesses no reino dos togados

Ganha força uma imagem que aumenta a descrença da sociedade: a autoconcessão indiscriminada de benesses

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Do universo de impressões negativas que se tem do Judiciário no Brasil, sobressaem lentidão e burocracia; destacam-se, logo atrás, um e outro compadrio e casos isolados de injustiça. Nos últimos tempos, porém, ganha força uma imagem que aumenta a descrença da sociedade neste que é um poder indispensável a toda democracia madura: a autoconcessão indiscriminada de benesses. Esta semana, O DIA noticiou que magistrados fluminenses ‘aprovaram’ um auxílio-educação mensal de pouco mais de R$ 7 mil para cobrir custos diversos da formação dos rebentos dos togados. Cabe lembrar que ainda está bem fresca a perplexidade com o vistoso reajuste que o STF autodeferira uma semana antes: 22% de majoração, frente aos mirrados 8,8% concedidos ao salário mínimo nacional — ou nem isso, para muitos trabalhadores.

Assim como o aumento proposto pelos ministros do Supremo, a ‘Bolsa Toga’ precisa ser referendada pelo Legislativo, neste caso a Alerj — mas que ninguém se entusiasme, pois é improvável que parlamentares contrariem os meritíssimos. Mais fácil a classe recuar ao ponderar os impactos, concretos e subjetivos, que tal gastança provocaria. No que toca aos 22% do Supremo, nenhuma surpresa, todos os salários do Judiciário subirão na mesma escala, e a reação, todos já sabemos. Questiona-se a justeza dessa benesse, ainda mais quando se lê a justificativa, a de “corrigir perdas inflacionárias” — o que corroeu os ganhos de todo mundo, e muitos viram seu vencimento ser achatado.

No que surge um auxílio-educação, luxo desfrutado por uma ínfima minoria no país — e jamais nessa generosidade de R$ 87 mil ao ano —, como salvar os magistrados fluminenses de uma crise de imagem? Juízes ganham muito bem e têm diversos adendos e benefícios. Se aprovado, esse anabolizante tornará a máquina do Judiciário ainda mais dispendiosa.

A questão é quando o dano é mais sentido na reputação do que no bolso. Nessa toada, não custará para que os togados apareçam menos como defensores do povo, a quem deveriam ser iguais, e mais como monarcas encastelados que só pensam em riqueza e em manter distância dos desfavorecidos.

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