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Milton Cunha: Brincadeiras seriíssimas

Não vem metendo a mão em corpo alheio, sem autorização, porque a mão que faz a bomba faz o samba

Por bferreira

Rio - Quando a namorada do jovem jogador de futebol se afastou da mesa da churrascaria, foi a hora em que o outro atleta, mais velho e famoso, aproveitou para brincar. Depois que ele tomou o tapa na cara do iniciante, usou “era só brincadeira...” para justificar seus desatinos. Talvez possuído pelo álcool, sempre a pronta desculpa para tais patoladas, o experiente não atinou para o quadro de que ali o buraco era literalmente mais embaixo.

É bom para ele aprender que jovens precisados não fazem tudo o que os outros poderosos querem, só para se dar bem. Imaginem a cena: do alto de seu poder, o jogador estabilizado se depara com o humilde e des-lum-bran-te garoto da favela, as mais belas pernas e bunda que Deus botou sobre a face da Terra, e primeiro começa com a brincadeira de comparar grossura de coxas, tipo “a minha é mais grossa que a tua...”. Hã,hã, todos se olhando na mesa, rindo amarelo para deixar a noite rolar, mas todo mundo já com aquela cara de “ihhhhhh, essa tábua leva prego” (se é que vocês me entendem, e tenho certeza de que sim, vocês já viram esta novela antes!).

A partir da noite passada, o celebrity vai pensar mil vezes antes de “brincar” com quem ele não tenha a certeza de que também aceita o avançar de sinal. Admirável mundo novo que me revela a dignidade do pobre lutador (não sei se uma espécie em extinção), garotos do século passado, que só gostavam de garotas. Talvez a sua firme e madura companheira, poderosa, lhe dê as armas necessárias para raciocinar e meter a mão na cara do outro, babaca. E não venham me dizer que a maioria dos “de base” aceita, ou é obrigada a aceitar, porque esta crônica é sobre uma única mão que se levanta e lava nossas almas, precisadas tanto do “diga não à exploração sexual, chô enrustidos”. Adoro o som do tabefe, adoro a perda de cor a qual o conhecido jogador foi submetido, porque a mãozada o trouxe de volta ao mundo real, quando ele descobriu que não é dono dos outros, só porque chegou lá (aliás, chegou onde cara pálida?, se chegou na fama e dinheiro, mas falta-lhe um lugar no coração para posicionar sua humanidade?).

Defendo a investida verbal, tipo, “você é lindo, posso te tocar?”. Aceita quem quer, alguns já estão chamando para o toque só nos olhares e respiração. Mas não vem metendo a mão em corpo alheio, sem autorização, porque a mão que faz a bomba faz o samba, já bem disse a sabedoria popular. Não tenho o menor interesse em revelar a celebridade, porque, para mim, o precioso e digno de capa desde o estapeamento passou a ser o íntegro e anônimo menino.

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