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Luiz Flávio Gomes: Paradoxo brasileiro

Por que os brasileiros abominam os políticos corruptos e quase sempre votam neles?

Por thiago.antunes

Rio - Por que os brasileiros abominam os políticos corruptos e quase sempre votam neles? Por que 250 mil paulistas reelegeram Paulo Maluf, mesmo depois de ele ter sido, na Suíça, protagonista involuntário (‘Sr. Propina’) de propaganda contra a corrupção mundial? Suely Campos (PP) se tornou governadora de Roraima porque o marido, o ex-governador Neudo Campos, foi barrado pela Lei da Ficha Limpa. Assumiu o cargo e nomeou 19 parentes para cargos públicos. Juntos, receberão R$ 398 mil por mês. Nepotismo deslavado. Justificou-se dizendo “ser prática comum na história de Roraima”.

O “paradoxo do brasileiro” é uma provocação à lógica. Não há quem não esteja indignado com “tudo isso que está aí” (corrupção, roubalheira nos órgãos públicos, financiamentos eleitorais indecentes, morosidade da Justiça etc.). Coletivamente, no entanto, o resultado final de todos nós juntos é o “tudo isso que está aí”.

Esse é o “paradoxo do brasileiro”, segundo Eduardo Giannetti. Pessoalmente, somos e vendemos a imagem do que gostaríamos de ser: honestos, probos, íntegros, avançados, progressistas, amistosos, cordiais. Discursamos sempre de acordo com essa imagem. Coletivamente, não somos nada dessa imagem que gostaríamos de ser. É por isso que o todo é muito menos que a soma das partes.

Por que discursamos como suecos civilizados e nossa sociedade é tão indecente e aberrante? Por que discursamos como os melhores motoristas do mundo e temos 45 mil mortos por ano no trânsito, milhares de aleijados, mais de meio de milhão de feridos? Por que bradamos por honestidade e reelegemos Maluf, Renan, Sarney e tantos outros declaradamente desonestos?

Giannetti explica: “Aos seus próprios olhos, cada indivíduo é bom, progressista, e até gostaria de poder ‘dar um jeito’ no país. Mas enquanto clamamos pela justiça e eficiência, enquanto sonhamos, cada um em sua ilha, com um lugar no Primeiro Mundo, vamos tropeçando coletivamente, como sonâmbulos embriagados, rumo ao Haiti. O brasileiro é sempre o outro, não eu.” Quanto mais incrementamos nossa autoimagem individual, mais o coletivo se afunda na roubalheira. Mais reelegemos os políticos reconhecidamente corruptos.

Luiz Flávio Gomes é jurista e professor

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