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Jesus amparando a prostituta é um clássico de minha existência emocional, sempre o achei bacanérrimo

Por thiago.antunes

Rio - Eu estava batendo perna na Saara, procurando as peças da minha maquete de um carro alegórico para o Carnaval da Argentina. Na Praça Tiradentes, dobrei na rua das prostitutas, fui passando pelos bares com aquelas máquinas de música alta, e elas sentadas nas mesas. Uma disse: “Oi, querido”. Mas a outra deu um grito: “Acabei de te ver na televisão; adoro você...”. Eu não me fiz de rogado, parei, disse: “Muito obrigado; meu respeito por vocês”.

Respeito! Tem coisa melhor para os que vivem na corda bamba? Apontar o dedo e julgar é o mais fácil, mas aprendi com Jesus: o peneirar de uma doutrina, as coisas que me serviram e adotei, e todas as outras que abandonei por discordar. Como no dogma religioso, ou você aceita (que dói menos), ou você não aceita. Questionar não pode. Mas a cena de Jesus amparando a prostituta é um clássico de minha existência emocional, sempre o achei bacanérrimo por aquilo.

Eu frequentava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Belém do Pará do início dos 70, levado por meu pai. Bairro paupérrimo do Telégrafo, me lembro dos inválidos se arrastando pelo gigante pátio de chão encerado. Ao passar pelas “meninas”, me voltou a sensação de ver o homem da muleta velha, o leproso. Meu pequeno coração ia ficando apertado e então já estávamos na nave central da igreja, com luz atravessando vitrais e banhando a gente toda de cor. No alto, ao centro, o Perpétuo Socorro: “Esta mulher não cansa nunca?”, me perguntava, entre medo e contrição. A mesma dubiedade que me persegue até hoje, o mesmo teatro do sagrado que me seduz e, ao mesmo tempo, afasta dos católicos.

Talvez eu antecipasse aquelas lembranças porque, procurando imagens de anjos e cavalos, em pequenas esculturas, eu certamente iria entrar nas lojinhas de imagens de santos. E esses comércios misturam imagens de todas as seitas, e várias Yemanjás sempre estão lado a lado com Arcanjos e Shivas. E o cheiro da fumacinha perfumada sempre é o fio condutor para o passado, eu já sabia.

E esse sentimento de quase choro, essa piedade imperiosa que se impõe, essa oração não oficial de agradecimento por estar deste lado da vida, e não daquele? Finjo que não estou entrincheirado e vou olhando cuidadosamente as vitrines, até que as soberbas asas de um anjo me seguram.

O escudo, a espada, os cachos e a pele branca, a saia de tiras, as pernas e... mas, Meu Deus, ele está esmigalhando um homem negro com seu pés. O rosto em desespero do africano contra o chão, o cabelo sarará, as correntes que sobem dos punhos deitados até a mão do anjo. Nunca gostei do sofrimento, nunca concordei que branco é virtude e negro, castigo. Aprendi com Jesus que o diferente deve ser tratado com humanidade digna.

E-mail: chapa@odia.com.br

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