Editorial: Sem caça às bruxas na aviação

O mundo ainda busca, estarrecido, explicações para a tragédia do voo 9525 da Germanwings, em que morreram 150 pessoas

Por bferreira

Rio - O mundo ainda busca, estarrecido, explicações para a tragédia do voo 9525 da Germanwings, em que morreram 150 pessoas, na última terça-feira. Restam poucas dúvidas acerca do acidente, cada vez mais na conta do copiloto Andreas Lubitz. Ensaiou-se ao longo da semana, no entanto, uma caça às bruxas tanto para apontar responsabilidades quanto para corrigir falhas que possibilitaram a ação surpreendente do provável suicida. Ainda que o episódio enseje ajustes, não é prudente agir com histeria.

É sabido que quase todo acidente de avião decorre de série de causas. Uma falha isolada tem poucas chances de derrubar uma aeronave ou comprometer seu funcionamento, uma vez que os procedimentos e mecanismos de segurança trabalham em redundância — na prática, uma rede de serviços e padrões capazes de compensar panes ou erros. E todas essas normas foram revisadas, pelo alto, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

A atitude desesperada de Lubitz é raríssima: não se conta nem uma dezena de casos afins — tanto que não há manuais sobre suicidas que levam consigo um voo lotado. Exatamente por isso, deve-se evitar a caça às bruxas — um nivelamento por baixo que consideraria dois quintos dos aviadores “potenciais maníacos-depressivos”. Seria uma estupidez e um desserviço à psiquiatria, que tanto se esforça para limpar estigmas e estereótipos da sociedade.

Mas cabe, sim, verificar as lacunas — ou a série de causas deste acidente. Não teria Lubitz poucas horas de voo — apenas 630 — para assumir a aeronave? Por que não se observou o princípio de haver duas pessoas na cabine, adotada por várias companhias? Em terra, dado o histórico delicado do copiloto — com interrupção no curso de formação —, como ele conseguiu omitir alertas sobre sua saúde?

A resposta a essas perguntas ajudará a corrigir as falhas e a tornar a aviação cada vez mais segura. Sem paranoias ou afobações.

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