Jaguar: Millôr, Deus e o Papa

Passei a crer em Deus depois que Francisco se revelou o primeiro humorista do Vaticano

Por bferreira

Rio - Parece que foi ontem que Millôr deixou o Brasil sem graça. A sua. E foi ontem mesmo, 27, só que há três anos. Ouso afirmar que ele foi o maior humorista do seu tempo. Groucho Marx e Woody Allen, juntos, não dão um Millôr. Para um ateu convicto, tinha quase uma obsessão por Deus, a começar pelo título do livro: ‘Millôr Definitivo — a Bíblia do Caos’. Para alumbrar o sábado, cito algumas frases definitivas do Guru do Meyer, como ele se nomeava: “Está bem. Deus é brasileiro. Mas, pra defender o Brasil de tanta corrupção, só colocando Deus no gol. # O ateísmo é uma espécie de religião em que ninguém acredita. # Deus no sétimo dia descansou. Aí choveu paca e não deu praia. # Há padres que falam de Deus com tanta convicção que a gente se convence de que Deus não existe. # Com esse mundo desgraçado, e cada vez mais, em que fomos condenados a viver, uma coisa é certa: Deus não merece existir.  #  Deus fez o mundo em sete dias apenas porque ainda não tinha sindicato. Hoje levaria trinta.  # Estranho: os capitalistas acreditam em Deus. Os comunistas, não. # Se Deus existe, onde é que ele está quando a gente fura um pneu na estrada? # O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelheceram. Mas o Diabo fez plástica.

Quando eu vejo esse pessoal acordando cedo pra ir rezar, se benzendo sempre que passa na frente de uma igreja, ou antes de disputar uma prova esportiva, ou mesmo antes do mais simples mergulho no mar; quando vejo o número de rezas que devem ser aprendidas, o variado número de gestos e genuflexões a serem feitas, quando vejo a quantas liturgias e cerimônias um religioso é obrigado, vem-me sempre um sentimento de profundo respeito — como dá trabalho acreditar em Deus! # Deus existe. Mas é ateu.” Parece que Millôr curtia encher o saco de Deus. Mas, sobre papas, nada. A gente tem a impressão de que ele dispensava intermediários. Mas acredito que mudaria de opinião se conhecesse o Papa argentino que tanto inferniza (epa!) com sua informalidade a vida de alguns cardeais. Passei a crer em Deus depois que Francisco se revelou o primeiro humorista do Vaticano. Adorei sua piada sobre suicidas argentinos: “Eles sobem nos próprios egos e se jogam.” Os hermanos devem ter ficado zonzos. E a Casa Rosada, com Dona Cristina dentro, vermelha de raiva. E completou: não vai aguentar muito tempo. Aquela pompa toda o entedia, gosta mesmo é de flanar sem aparatos papais e conversar com as pessoas. Depois que ele sair, volto a ser ateu.

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