Milton Cunha: Para ninar 'bandidos'

Quero uma polícia que enfrente os horrores do tráfico dimensionando o horror que a ausência do estado nos meteu

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Juntar ironicamente a beleza do significado de palavras, com um lancinante novo sentido. No grande jardim de infância da violenta desesperança, quando o neném quer cantar, os adultos bandidos dormirão o sono da morte. A inversão, o caminho de volta ao útero materno que são os sete palmos e seus caixões. A tenra idade é que cantaria para despachar os cansados que já viveram, para a dormida mais profunda de todas. Em sua pureza de sons, adormecer terminantemente. Linda e macabra construção poética para ser uma metáfora do barulho infernal que faz tombar os corpos, seja lá quem dispare. Estamos no mesmo nível da denominação de “anjo da morte” para o silencioso e delicado nazista que separava suas vítimas na rampa do campo de concentração, só para depois usá-las nos mais terríveis e mortais experimentos.

E a carícia sobre o metal frio que corporifica gatilhos, canos, munições, coronha, ferrolho. Desesperada tentativa de humanizar a arma, torná-la companheira, dar-lhe uma alma. E isto revestido do poder do “papai”: filhinho, criança, bebê, neném, sempre fará, obediente, o que ordena o genitor. Magnífico artifício de transferir para o exterior de si, no diferente objeto/ser, a responsabilidade de adormecer o outro, dito mal. Ou, como querem os psicanalistas, o prolongamento do corpo, o segundo pênis, que na identidade dos machos, emparelha com o automóvel; tudo a ver com a frase dos caras que dizem “não mexe com o júnior” (nome do próprio falo). Tenho um órgão genital, um carro, uma arma, logo existo. Plantar árvore e escrever livro, foi-se o tempo.

E que cantiga de ninar é esta, as rajadas, o cuspe de intermináveis balas, que despertam a delícia do jovem policial? Seria a mesma perversão do ‘Apocalipse Now’, quando o oficial siderado vai nos helicópteros durante os bombardeios às aldeias dos vietnamitas paupérrimos, porque adora o cheiro de napalm ao amanhecer, na hora do café da manhã? Mas isto não seria justamente o oposto do perfeito entendimento do que seria a resposta para “para que serve uma arma?”. Objetivamente falando, algo letal jamais pode ser subjetivamente denominado, sob o risco de se perder a noção do perigo real que matar é.

Não aceito esta personificação do extermínio, quero uma polícia que enfrente os horrores do tráfico dimensionando o horror que a ausência do estado nos meteu. Estou do lado da lei, e nem por isso admito a banalização e generalização da morte. Cada tiro disparado, de ambos os lados, não são produtos de margaridas, cacildas ou nenéns. São, isso sim, nossa proximidade com a barbárie, a guerra, o purgatório.

Melhor denominá-las, as armas, demônios necessários!

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