Jaguar: Vários tons de Tom

Meu anjo da guarda e o de Tom eram amigos. A gente sempre se encontrava nos bares

Por bferreira

Rio - Só fui uma vez à casa do Tom. Mas a gente sempre se esbarrava nos bares do Leblon. Meu anjo da guarda devia ser amigo do dele; a gente nunca se telefonava, nem marcava encontro, mas quase todos os dias íamos parar na mesma mesa, neste ou naquele bar, nas horas menos prováveis. Perdi a conta das vezes em que eu estava numa mesa do Bracarense, lendo jornal, revezando chope com Steinhager. Ele chegava na sua banheira, um daqueles carros americanos dos anos 60 que Steinberg adorava desenhar. Eu tinha uma velha Brasília, herança do meu pai. Se fôssemos disputar para saber quem dirigia pior, daria empate. Como cachorros velhos, que levam os donos que beberam além da conta de volta para casa, nossos carangos iam automaticamente de um bar para outro. Nunca bati com o carro e, que eu saiba, nem ele. Os anjos cuidavam de tudo. Tom dava uma meia-trava no Bracarense para encomendar uma quentinha com dobradinha e ia comer no Plataforma.

Às vezes trazia seu cachorro. Não me lembro direito, mas acho que era um vira-lata branco que dormia o tempo todo debaixo da mesa. Enquanto esperava, Tom pedia um uísque e perguntava: “Como se diz ‘on the rocks’ em inglês?” (ou seria em português?). Parece que só ele e eu achávamos graça na piada, e o Tom sempre repetia. A gente invariavelmente ria. Historiadores e pesquisadores me perdoem se minhas lembranças forem de pouca valia. Nunca falamos nada sério, só bobagem. Mas pelo menos me orgulho de ter sido coadjuvante no lance que resultou em ‘Águas de Março’, que muitos (eu, inclusive) consideram a obra-prima do maestro. Recapitulando: fui encarregado pelo Sergio Ricardo e o idem Cabral de pedir uma música inédita para o lançamento do ‘Disco de Bolso’, editado pelo ‘Pasquim’ (uma espécie de ‘Charlie Hebdo’ dos anos 70).

A imagem que guardo do Tom é a de um cara tranquilo e bem-humorado. Por isso, levei um susto quando, num boteco de Itaipava, um colega de Célia na Uerj nos contou que estava na fila do caixa do extinto Bamerindus, atrás do Tom, que soltava baforadas de um monumental charuto. Tinhoso, descobriu seu endereço (uma aluna sua era amiga da filha do maestro). E botou no correio um bilhete para A.C. Jobim dizendo que era um grande admirador e mencionou o fumacê. Quando voltou ao banco, sentiu uma clima esquisito. Motivo: Tom, furioso, tinha interpelado o gerente: “Quem foi o f.d.p. que deu meu endereço para este imbecil?” Nunca fui apresentado a este A.C. Jobim. Ainda bem.

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