Editorial: Democracia não pode ser a pistoladas

Crimes políticos têm a cruel particularidade de calar descontentes ou opositores

Por paulo.gomes

Rio - Herança macabra do coronelismo, as execuções de políticos são um câncer tão devastador à democracia quanto a corrupção. Não por acaso se relacionam com malfeitos de toda sorte, como o repórter Francisco Edson Alves mostrou na edição de ontem do DIA. Em dez anos, 20 cidadãos públicos foram assassinados por pistoleiros em emboscadas — parte do universo onde, desde 1991, 42 políticos perderam a vida em ações violentas no estado.

Atentados à democracia se perpetuam graças à impunidade, como acentua a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, da 2ª Vara Criminal de Duque de Caxias. A cada 20 homicídios no Brasil, apenas um é resolvido pela polícia, taxa vergonhosa replicada nos crimes políticos. Com investigações pífias, capangas têm terreno livre para fazer quaisquer trabalhos de seus mandantes. E desavenças ou discordâncias são resolvidas a bala.

É preciso frear essa roda-viva o quanto antes. O intenso trabalho da Justiça, do MP e do TRE já conseguiu enfraquecer alguns currais eleitorais, impedindo a eleição de ‘coronéis’ nos últimos pleitos. Mas não basta. O Estado deve garantir a segurança de testemunhas, para que se denuncie mais.

Crimes políticos têm a cruel particularidade de calar descontentes ou opositores, o que é péssimo para a democracia, pois assegura um grupo no poder — e este, com liberdade para matar quem poderia lhe oferecer resistência, pode fazer o que quiser. É uma tentação para aspirações ditatoriais que precisa ser cortada pela polícia e pela Justiça.

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