Milton Cunha: Ajuda ou atrapalha?

A parada Gay de SP pode fazer duras críticas à opressão que o Dogma religioso impõe às relações sociais

Por bferreira

Rio - Naquela manhã eu acordei com a imensa foto da Vera Fischer crucificada no alto de uma ladeira na Lapa, estampando uma reportagem sobre o andamento das tomadas do filme de Neville D’Almeida. Gelei. Fiquei indo e voltando mil vezes, como se não acreditasse naquilo: era muita coragem! A atriz seminua, com sangue cenográfico sobre o corpo, o dia amanhecendo, as folhagens por trás, enfim, uma loucura, a louraça lá, suspensa na cruz. Muito se fala que vários humanos foram crucificados, mas o ícone é mesmo Jesus Cristo e ponto final. Pois a cena representava um delírio da prostituta Neusa Suely, do ‘Navalha na Carne’.

Depois vi um Cristo arrastando uma cruz na Marquês de Sapucaí, numa encenação em desfile da Beija-Flor. Era tanto sofrimento e dor, dentro da folia, que neste caso eu simplesmente desviei o olhar para não embarcar nas minhas viagens de analisar a proposta, o que me faria sair do barato que é ver o desfile, e não ficar buscando referências bibliográficas para a questão. Mas antes de deletar, concluí que eu não gostava nenhum pouco daquilo. Nunca concordei com imagens de santos para ser convite de festa profana, tenho verdadeiro pavor do que isto pode suscitar nos corações dos que creem com fervor na imagética Católica, que foi sob a qual nasci e me eduquei. Desta experiência, chego a todos os outros humanos que creem nas divindades, e supercompreendo o estado aflitivo no qual eles são jogados diante da blasfêmia. Algo da esfera dos espíritos fica tocado, neles. E daí para a revolta dos instintos animalescos é um pulo quase certo. A elevação metafísica é irmã gêmea dos baixos escalões que habitam aquelas gavetas da psique que melhor seria mantê-las fechadas.

Quando o Pastor quebrou a imagem de gesso da Santa; quando publicam charges sobre Maomé; quando invadem terreiros de Candomblé; quando declaram que o Deus Católico é melhor que Tupã; enfim, a questão da liberdade de expressão civil ou artística, e os limites disto (existem?) é uma das grandes questões da atualidade. Eu tenho medo do sagrado pelo que seu vilipendio pode motivar nos devotos. Isto nunca acabou bem e acho que a parada Gay de São Paulo pode fazer duras críticas à opressão que o Dogma religioso impõe às relações sociais até para quem nele não acredita. Estaremos na intelectualidade, maravilhoso campo onde a batalha é de palavras. Seria mesmo necessário trazer a iconografia sagrada para dentro da celebração política que esta festa é? Neste mar de conquistas em que queremos ser deixados em paz, melhor é ser parcimonioso ao praticar a liberdade individual.

E-mail: chapa@odia.com.br

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