Karla Rondon Prado: A descoberta das palavras

Adoro a língua portuguesa e seus sons esquisitos. Ler dicionário. Empregar as palavras em seu sentido correto

Por bferreira

Rio - Escondidos debaixo do lençol, que cortava a luz direta do sol, nós ríamos muito quando eu falei, enquanto tomava fôlego entre uma gargalhada e outra: “Filho, eu adoro você!”. Ele me olhou, meio confuso, meio curioso, com cara de descoberta, e repetiu: “A-do-ro. Adoro cabana!”

Eu ri e mandei um áudio do WhatsApp para o pai da criança. “Foi muito lindo, ele nunca tinha ouvido falar em ‘adoro’, só você vendo”. Aquela expressão no olhar do menino marcou meu início de dia. Como em outras descobertas que ele me proporciona alegria, essa em especial mexeu comigo, pois foi a descoberta de uma palavra.

Que lindeza é você perceber alguém descobrindo e adquirindo vocabulário. “Adoro”, repetiu, como quando a gente vai para a aula de inglês, ou de qualquer língua estrangeira que seja. Quando viajamos para um país em que as palavras são formadas em sua maioria por consoantes e não entendemos absolutamente nada. Com 2 anos, ele ainda não sabe como se escreve, mas a sonoridade foi nova. E soou bem aos seus ouvidos.

Uma lembrança que tenho foi quando, na adolescência, na matinê, encontrei o menino que eu gostava. A gente esperava a semana toda fingindo que não se conhecia no colégio para, ao chegar na hora da música lenta, dançarmos juntos “por acaso”. Num dia, que não tínhamos mais como disfarçar que nos conhecíamos, os casais começaram a se formar, e eu lá parada no canto da pista, não aceitei nenhuma dança. Ele foi se aproximando, o meu coração palpitando, até que ouvi um “oi, quer dançar?”. Quase morri, minha boca tremia, eu queria parecer natural e, claro, aceitei prontamente. Fiquei supernervosa com a aproximação da boca dele do meu rosto e arregalei os olhos quando, de repente, ouvi sua voz: “Eu te acho muito maneira!”. Lindo, maravilhoso, deve ser coisa boa, pensei. Mas que diabos quer dizer “maneira”? Na ignorância da palavra, uma gíria dos anos 80 que significa ‘bacana, legal’, fiz como meu filho: sorri. Meio curiosa, meio confusa, com cara de descoberta.

Adoro a língua portuguesa e seus sons esquisitos, suas frases cheias de palavras. Ler dicionário. Empregar as palavras em seu sentido correto. E fico revoltada quando interpretam mal o que eu disse. Meu marido costuma dizer que eu sou a editora perfeita, pois estou sempre dizendo alguma coisa sem dizer e ganhando no texto. “Não é isso”, explico. As palavras têm seu significado. Por isso existem tantas e cada uma deve ser empregada em uma situação. Às vezes, o que você entende como sinônimo, na verdade não é.

Adoro não é amo. Mas isso muita gente ainda vai aprender.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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