Luiz Antônio Simas: Meu telefone

Aos 8 anos, qualquer criança vinda de família com alguma condição financeira já está conectada

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Dos presentes que o meu filho ganhou até hoje, me comove o mimo dado pelo poeta Hermínio Belo de Carvalho. Por ocasião do samba de fraldas que saudou a proximidade da chegada do moleque, Hermínio me entregou um pião de madeira e várias bolas de gude. Guardo os brinquedos como relíquias que o moleque haverá de reverenciar — depois de brincar muito — um dia. Ou será que ele desprezará, solenemente, o piãozinho cheio das poesias?

Andei pensando no presente do poeta depois de ler, dia desses, que existe, mesmo em tempos de crise, forte expectativa do comércio em relação às vendas, no período de Natal, de celulares e iPads para crianças. A oferta de aplicativos para o mundo infantil já é enorme, havendo mesmo ‘apps’ para quem queira soltar pipas virtuais e pular amarelinha sem sair do sofá. Lendo isso me lembrei do meu primeiro telefone. Era uma simples lata vazia com um furo e um barbante que, amarrado a outra lata, permitia a comunicação entre a criançada. Na falta da lata, é bom ressaltar, qualquer pote de iogurte, daqueles de plantar feijão no algodão, servia aos propósitos dos pequenos Graham Bells descalços.

Matuto, portanto, sobre os fedelhos virtuais, enlouquecidos com seus aparelhinhos e dezenas de aplicativos, e constato o seguinte: aos 8 anos — exceções confirmam a regra —, qualquer criança vinda de família com alguma condição financeira já está devidamente conectada; frequenta redes sociais, posta fotos digitais, manda mensagens pelo celular, passa o dia olhando as telas de aparelhos e o escambau. É, enfim, pingo de gente antenada com o mundo.

Na correria atual, em que milhares de pais e mães acorrentados pela lógica produtiva e acumulativa do trabalho terceirizam a criação dos filhos, quem vai ensinar que a búlica consiste em um jogo de bola de gude em que são necessários três buracos equidistantes, em fileira, num chão de terra? Os pirralhos e fedelhas saberão que quem consegue lançar a bolinha direto no terceiro buraco — coisa de craque — pode sair matando as bolas dos outros?

Entendo cada vez menos desses tempos de delicadezas perdidas. Não sou propriamente um pessimista — e acredito nas reinvenções de mundo dos miudinhos e nas artimanhas da ressignificação dos modos de brincar das meninas e meninos. Só confesso, sem qualquer pretensão de análise mais profunda, que me bateu uma alegria quase triste quando me lembrei do meu telefone de lata. Funcionava que era uma beleza, e eu me comunicava bem à beça.

E-mail:luizantoniosimas67@gmail.com

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