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Milton Cunha: 24 é meu número

Lá embaixo ele via, silencioso, a festa da multidão. Sozinho, mandou instalar um painel que lembrava a antiga morada, feliz

Por bferreira

1. Que minha pança diminua sem eu precisar parar de tomar chope e comer salgadinhos; 2. Que a sexualidade de ninguém signifique qualquer juízo de valor para alguém; 3. Que toda criança possa estudar e se educar; 4. Que todo velho possa se divertir; 5. Que toda mulher possa fazer o que lhe der na telha; 6. Que todo marmanjo saiba de seus limites; 7. Que os panetones sejam como nas propagandas : borbulhem creme brilhoso; 8. Que meu Cabaret do Milton abra as portas na praça Mauá e ele nunca incendeie como a boate Kiss de Santa Maria RS; 9. Que humanos sejam como os chimpanzés e sorriam mais; 10. Que o vodu em cima da Bradesco saúde (queda de avião, mortes de líderes, arvore de natal entortada, e inauguração do que sobrou da arvore em baixo de um temporal lancinante) nunca mais se repita; 11. Que o jogador Huck pose nu ( e que seu Peru de Natal não nos decepcione); 12. Que mais padres abracem travestis exemplares em sua misericórdia; 13. Que Karla Prado continue a ver beleza neste mundão de Deus, tão sofrido; 14. Que ninguém mais tenha mau hálito; 15. Que a lama no Rio Doce arraste consigo um clamor nacional por mais responsabilidade; 16. Que o ajuste fiscal se ajuste no corte de gastos do governo Dilma, pobre coitado desajustado; 17. Que Paris nunca perca o titulo de Cidade Luz, mesmo sob ataque constante; 18. Que o racismo, tão presente no mundo, desapareça; 19. Que não apareçam mais corpos de crianças boiando no Mediterrâneo, vítimas das loucas tentativas de escapar da guerra; 20. Que Joelma (argh!) e Chimbinha reatem, pois eles se merecem, e nós não os merecemos; 21. Que a revitalização da Zona Portuária do Rio seja um gol de placa; 22. Que o Papa Francisco sobreviva às trevas; 23. Menos Eduardos Cunhas, mais Sergio Moro neles!

24. Por alguma sorte da vida ele enriqueceu. Abandonou os seus, e se mudou para o alto. Lá embaixo ele via, silencioso, a festa da multidão. Sozinho, mandou instalar um painel que lembrava a antiga morada, feliz. Plantou uns bonecos no solo, que se vestiam como seus antigos amigos. Deu uma festa, contratou os figurantes, e como ela não era o real, resolveu cercar a antiga zona de seus dias felizes. Os outros não gostaram, porque ele queria mandar em tudo, até na forma de ser dos outros. E mais que isto, queriam ir e vir, livres. Nenhuma prisão lhe era segura demais, nenhum muro lhe trazia felicidade. Ele tinha perdido o fio que o conduzia ao mundo descontrolado dos sem poder econômico. Seu poderio tinha de alguma maneira quebrado o liame da vida descompromissada, alegre. Ninguém mais gostava do que ele tinha se tornado, todos diziam que o antigo era mais bacana. Até que ele teve a ideia de dar tudo, e voltar de mãos abanando para aquele repertório da luta diária.

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