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Fernando Molica: A grande injustiçada

Nada se compara com a que atinge a ópera, vista como algo chato e inacessível, produto cultural destinado a velhos ricaços esnobes

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Por conta de um trauma de infância, o roubo que deu ao Fluminense o campeonato de 1971, fiquei sensível a casos flagrantes de injustiça. Compreendo, portanto, a queixa do Luis Fernando Verissimo à discriminação sofrida pela gema de ovo e a bronca do Gabriel Cavalcante, que não se conforma com o preconceito contra o jiló. Mas, em matéria de injustiça, nada se compara com a que atinge a ópera, vista como algo chato e inacessível, produto cultural destinado a velhos ricaços esnobes.

Eu achava o mesmo até assistir a um filme italiano sobre sindicalistas. Numa cena, operários se emocionavam ao ver uma ópera na TV, reagiam como se estivessem diante de um Milan contra Juventus. Percebi então que ao classificar o desfile das escolas de samba de “ópera popular”, Joãosinho Trinta cometera uma injustiça, já que a ópera é popular, algo que, como diria o Roberto Jefferson, remete aos nossos instintos mais primitivos.

Imagine a festa que o ‘Meia Hora’ faria caso o Japonês da Federal se apaixonasse por uma mulher envolvida na Lava Jato e permitisse sua fuga da cadeia. Para não perder a amada, ele abandonaria a família e a corporação e se aliaria a saqueadores da Petrobras. Traído, ele ainda mataria a fulana. Difícil imaginar algo mais palpitante e popular, certo? Pois esse é o resumo, com uma devida troca de personagens, de ‘Carmen’, uma das mais belas e conhecidas óperas.

E o rapaz rico que, em ‘La Traviata’, se apaixona por uma prostituta que o abandona ao ser pressionada pelo sogrão? No fim, ela morre nos braços do amado. Tem também aqueles jovens e miseráveis artistas que, em ‘La Bohème’, tentam escapar do frio e da fome, uma outra história popular. Na trama, outra heroína sucumbe à tuberculose — as tísicas batem um bolão em óperas, enchem os teatros com suas vozes. Neste universo, cantores enfrentam a plateia sem microfone, é como bater pênalti em final de campeonato no campo do adversário. Em tempos tão corridos, é preciso alguma disposição para encarar espetáculos que duram mais de três horas, mas vale a pena. E não sai caro, ingressos para óperas no Theatro Municipal custam a partir de R$ 36 (a inteira). É mais barato do que muito show que a gente vê de pé.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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