Por bferreira

Rio - Padrinho, no dicionário, significa protetor. Dois anos e três meses após a chegada da UPP, é justamente disso que anda precisando o ginásio no topo do Fogueteiro, comunidade vizinha à Fallet, onde acontecerá o 5º debate da série ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’. Erguido há quatro anos, com contribuição do poder paralelo, o local, com 10 mil m2 e estrutura invejável, sofre com a falta de conservação.

Lutadores do Fogueteiro enfrentam falta de luz%2C poças e tatame improvisado para poderem treinarAlexandre Brum / Agência O Dia

“Tá vendo aquela lâmpada?”, aponta Rogério Souza, professor de muay thay. “Paguei R$ 43,80 do meu bolso”, conta ele, à espera de uma luz que desperte a atenção do poder público para o mau aproveitamento do espaço. “Tenho 60 alunos, mas poderia ter 400”. Ricardo é um dos líderes do Projeto Boa Safra Team (BST), voluntário, que tem como estrelas Will Ribeiro, ex-campeão de Vale Tudo que sofreu acidente de moto e virou cadeirante, e Flávio Moura, vencedor do UFC 21 e dono do respeitável cartel de 36 vitórias em 42 lutas. “Falta tudo aqui”, diz Flávio.

E falta mesmo. Nas três visitas ao ginásio, a água da chuva descia das calhas quebradas e molhava as placas usadas como tatame improvisado, no segundo andar do complexo. Ao lado da quadra, no térreo, um banheiro estava sem um vaso; mais adiante, a pia até tinha água, mas o cano não estava mais lá. A quadra, com medidas de futebol society, apresenta ranhuras e passa manhãs e tardes vazias. Projeto oficial, até o momento, só o Rio 2016, do estado, o mesmo que foi alvo de críticas durante o último debate, no Morro da Mineira, dia 6 de maio, por atraso constante nos salários.

O enfermeiro Álamo Santos, professor de luta livre e tae-kwon-do, diz que as más condições afastam os praticantes. “O aluno chega aqui e não tem luz ou a água inundou o tatame”, diz. Ricardo é mais ácido. Para ele, o pior não são as condições materiais sofríveis. “É a sensação de que a favela não merece atenção”. Com a palavra, as autoridades.

Ex-segurança do tráfico no Andaraí busca a nova vida no octógono

“Posso escrever que você foi segurança do tráfico?” A pergunta, feita com cuidado, aconteceu no final da entrevista, terça-feira à noite, pouco antes de a reportagem deixar o ginásio. Mas Saulo Tavares nem titubeou. “Pode”.

Foi assim que o hoje lutador de MMA do Boa Safra Team começou a narrar sua saga, desde a época em que “tirava onda” como o segundo melhor atirador no quartel em que servia, até os dias de hoje, passando pelo tempo em que tinha “contexto” no morro e fazia a segurança do tráfico.

“Fui trabalhar como segurança do ‘cara’ por influência dos amigos”, conta Saulo. “Faltou opção de trabalho. Mas o importante, hoje, é que pouco a pouco estou recuperando o que perdi”.

Como acontece com Saulo, a palavra superação faz parte da vida dos amigos que treinam no Fogueteiro e no Andaraí. A luta, dizem os professores, mexe com o orgulho dos alunos. E funciona como metáfora perfeita. “Às vezes você está por baixo, mas numa posição que te permite virar. E ficar por cima” diz Álamo. Como no MMA, a chave do sucesso é a perseverança.

Lâmpadas queimadas, falta de bolas e falta de lanches

De fora, quem olha o ginásio se impressiona. A quadra tem medidas de futebol society e um palco para shows, além de dois bares e vestiários. Os treinos de MMA são em um dos lados do mezanino a o outro está desocupado. Há ainda duas salas imensas no subsolo, que estão sendo reformadas para, segundo a associação de moradores, abrigar um supletivo.

Do Fogueteiro não param de sair craques. Campeã da versão feminina da Taça das Favelas em 2012, a comunidade se orgulha de produzir para clubes como o Flamengo, do lateral João Paulo, e Audax, de Marcos Yuri Pereira Andrade, 12 anos.

“Já passei por América e Fluminense”, conta uma das joias do time. Professor de Yuri, Marcos Antônio Ferreira dava aula para 12 meninos na semana passada. O campo estava na penumbra — das oito lâmpadas, duas estavam apagadas — e as bolas eram suas. Mas ele resiste. “Poderia ter cem crianças, diz”. A falta de lanche é a maior dificuldade. “Eles precisam comer, ainda mais após treinar”.

Faz sentido. Hoje, Marcos tem 50 crianças sob suas ordens. A esperança da presidenta da associação de moradores, Cintia Luna, é a chegada do Sesi. O órgão, da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro(Firjan), já monta uma academia no local. “Mas podemos ter dança, atividade de terceira idade e outras coisas”, diz, meio cética com as dificuldades.

Bárbara, 14 anos, é o xodó dos lutadores

Bárbara Vitória Conceição Antônio, 14 anos, é frequentadora assídua do ginásio. Além de treinar MMA, joga também no time de futebol feminino do Fogueteiro, apesar de ser moradora do Fallet, onde luta jiu-jítsu e faz teatro. Tratada com cuidado pelo imenso potencial esportivo, a menina, “que já bate em muito homem”, como contou o professor Ricardo, sabe que só lutando pode sair da situação de risco que vive. “Por que eu luto? Porque eu posso mais do que isso”.

Secretaria promete vistoria

Informada pela reportagem sobre o centro esportivo, a assessoria da secretaria municipal de Esportes e Lazer prometeu fazer vistoria técnica no local para tentar inclui-lo no programa ‘Virando o Jogo’, feito para ocupar espaços construídos pelo tráfico nas comunidades pacificadas. O programa foi lançado durante o quarto debate da série ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’.

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