Por tamyres.matos

Rio - Apontado como um dos fatores que contribuem para a piora da mobilidade urbana nas principais cidades do país, a frota de automóveis não para de crescer. Na contramão dos engarrafamentos, a indústria automobilística comemora o recorde de vendas no acumulado dos cinco primeiros meses do ano.

De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram licenciados 1.480.445 automóveis, aumento de 8,6% com relação ao mesmo período de 2012. A expectativa, até o final do ano, é de que sejam vendidos 3,9 milhões de carros, crescimento de 3,5% a 4,5% — com relação ao ano passado.

A população do Brasil cresceu 6,5% nos últimos 10 anos. Já a frota de carros particulares subiu 85% no mesmo período, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Em 2003, eram 23.669.032 veículos e, em abril deste ano, 43.441.296 “possantes” liberando e engarrafando o trânsito.

Engarrafamentos só crescem. Especialistas discutem medidas de restrições ao uso dos veículos particulares nos centros das cidadesAlexandre Brum / Agência O Dia

O estado do Rio de Janeiro acompanha a tendência. Os números são mais moderados, mas não menos preocupantes que os do consolidado do país: 64,5% de aumento no mesmo período, com 3.689.800 carros particulares circulando atualmente.

Especialista do ITDP (ONG internacional que elabora projetos de mobilidade urbana), Pedro Torres aponta a facilidade de acesso ao crédito (um carro pode ser dividido em até 80 vezes) e os incentivos fiscais (redução do IPI, por exemplo) como os principais motivadores para o aumento da frota. “Os números são claros. De 2001 a 2011, o total de veículos no Brasil cresceu 121%, enquanto a população aumentou 12%”, considerou.

Defensor de uma campanha nacional pelo uso de transportes públicos de alta capacidade, Torres acredita que é preciso haver uma mudança cultural para que as pessoas deixem o carro em casa. Para ele, “o primeiro passo é garantir transporte público de qualidade”.

O advogado Rogério Jesus de Souza, de 48 anos, concorda. Morador de Jacarepaguá, ele levaria até duas horas para chegar ao Centro se usasse ônibus. De carro, faz o mesmo percurso em uma hora e dez minutos: “Falta oferecer condução de qualidade. Aí, eu deixava o carro em casa.”

A professora Sandra Regina de Moura Dias, 60 anos, tem carro, mas insiste que as bicicletas são a solução para as pessoas se deslocarem nas grandes cidades. “Tinha que ter mais ciclovia”, conclui.

Custo ‘invisível’ de veículos surpreende proprietários

O custo para manter um carro pode surpreender os proprietários, se forem colocados na ponta do lápis. O especialista em Finanças da FGV Sérgio Bessa diz que um veículo de R$ 40 mil (quitado) representa um gasto mensal médio de R$ 1.500. Além de seguro, IPVA, garagem e gasolina, estão nessa conta a depreciação (mais de 10% do valor no primeiro ano de um carro novo) e o rendimento que esse o dinheiro teria se fosse investido.

O antropólogo e escritor Roberto da Matta acredita que o automóvel é um símbolo de sucesso. “Ninguém é contra ao acesso de todos aos bens, mas ainda não existe uma consciência para o uso do espaço público igualitário”, disse.

Restrição à circulação é polêmica

Entre as medidas mais polêmicas para reduzir a quantidade de veículos nas grandes cidades estão as restrições ao uso dos carros, como já ocorre em São Paulo, com o rodízio de veículos, e em Londres, com o pedágio urbano.

Luis Antonio Lindau, presidente da ONG Embarq Brasil, defende melhorias no transporte público, como a instalação de BRTs (corredores exclusivos de ônibus articulados), aliadas às restrições aos veículos. “É muito ineficiente ocupar o espaço público no Centro com o automóvel. Cortar o número de vagas é outra chance para evitar isso”, disse.

Já o urbanista Jaime Lerner, que criou o sistema de BRTs em Curitiba, em 1974, se posiciona contrário. “As pessoas mudam se oferecerem alternativas melhores de transporte”.

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