Por tamyres.matos

Rio - Se vivo fosse, Cartola não ficaria apenas emocionado — ficaria orgulhoso. Desde 2007 resistindo na Mangueira, a Orquestra Jovem de Violinos Centro Cultural Cartola é uma espécie de cartão de visitas da comunidade, levando à cidade versões eruditas do repertório do cantor e compositor que consolidou a Estação Primeira como pólo cultural. Mas não é só a música — muito boa, diga-se de passagem — que vale a pena no projeto. A inclusão dos meninos e meninas de seis a 18 anos é de arrepiar.

“É gratificante trabalhar aqui”, conta o professor Alexandre Soma. “A orquestra está sempre se renovando e já temos alunos que estão estudando música na escola Villa Lobos”, prossegue Soma, um entusiasta do que faz. “Desde a pacificação, as crianças estão mais leves, despreocupadas. O próprio comportamento deles aqui mudou”.

A regente Sara toca ‘As Rosas não falam’%2C de Cartola%3A instrumentos emprestados para as crianças%2C que em sua maioria (90%) vem da MangueiraAndré Balocco / Agência O Dia

E mudou mesmo. Adriel Kelson, de apenas 7 anos, morador do Caju, está há três meses na orquestra e já é considerado um virtuoso. Sob o olhar atento da mãe, Andréia Luiza da Silva, o garoto toca duas flautas ao mesmo tempo. Depois, pega o violino e mostra a mesma habilidade. “Ele é hiperativo, e melhorou muito aqui”, conta ela. “Antes não conseguia nem ver um desenho inteiro”.

Coordenadora do projeto, Sayonara Barbosa entende exatamente o que a mãe de Adriel quis dizer. Entende até um pouco mais: ela que está no centro Cultural Cartola desde 20o08. “É natural a criança chegar aqui agitada, mexendo em tudo. Mas com o tempo, com a música, ela vai acalmando, e começa a participar de um outro ambiente em que tem alcance à cultura”. Os meninos da Mangueira agradecem.

Música, passaporte para a cidadania

Moradora da Mangueira, Isabela Valério, 7 anos, tem na ponta da língua o motivo para ensaiar três vezes por semana: “É porque eu gosto”, explica ela. A resposta, singela, é honesta. Tocando na orquestra, que tem o apoio da Petrobras, concentrando na leitura da pauta, no acorde, na afinação, Isabela escala degraus rumo a uma identidade social, bem distante da imagem preconceituosa que cerca moradores de comunidade.

Algo que sempre esteve no foco de Nilcemar Nogueira, a neta de Cartola e Dona Zica que leva na unha o centro cultural. “Vovô me ensinou que, se você se fortalece individualmente, não fica pequeno diante dos desafios da vida”. Alguém duvida?

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