'Guerra' no Complexo da Maré deixa 10 mortos

Segundo a Polícia Civil, duas das vítimas não tinham antecedentes criminais

Por cadu.bruno

Rio - Subiu para 10 o número de mortos nos confrontos de segunda-feira à noite e madrugada de terça no Complexo da Maré, na Zona Norte. Um corpo retirado da localidade Campo da Baixinha, na Nova Holanda, na manhã desta terça, não havia sido contabilizado pela polícia. Ele foi levado direto ao Instituto Médico Legal (IML).

Segundo a Polícia Civil, dois dos mortos não tinham antecedentes criminais. De acordo com a Delegacia de Homicídios, que investiga o caso, as circustâncias das mortes ainda estão sendo apuradas. Até o momento, foram colhidos os depoimentos de policiais militares da Batalhão de Operações Especiais (Bope) e de alguns familiares das vítimas.

O laudo do IML atestou que as vítimas foram mortas a tiros e que nenhuma delas tinha marcas de facadas pelo corpo, como alguns moradores da Nova Holanda e lideranças comunitárias haviam dito na terça-feira.

Eraldo Santos da Silva, 35 anos e Jonatha Farias da Silva, 16 anos, não possuem passagens pela polícia. Os demais, Ademir da SiIlva Lima, 29 anos, André Gomes de Souza Júnior, 16 anos, Fabrício Souza Gomes, 26, Carlos Eduardo Silva Pinto, 23 anos, Renato Alexandre Melo da Silva, 39 anos, José Everton Silva de Oliveira, 21 e Roberto Alves Rodrigues, têm anotações diversas por homicídio, suspeita de tráfico, porte ilegal de arma, roubo e lesão corporal.

Polícia confirmou nove mortes nos confrontos na MaréEstefan Radovicz / Agência O Dia

Além da vítima no Campo da Baixinha, oito pessoas morreram no Hospital Federal de Bonsucesso. O sargento do Bope Ednelson Jeronimo dos Santos Silva faleceu no hospital da corporação, no Estácio.

Preso sob a suspeita de ter matado a tiros o PM, Edvan Ezequiel Bezerri , o Ninho, de 29 anos, foi liberado nesta quarta-feira Segundo a DH, não havia provas contra ele. Ninho foi capturado numa casa com a mulher. Dois suspeitos continuam presos e três adolescentes, apreendidos.

'Cenário de guerra'

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, falou nesta quarta-feira sobre as acusações dos moradores de que o Bope teria agido de maneira truculenta. Em entrevista ao RJTV, Beltrame  afirmou que o cenário era "de guerra", o que seria ruim "tanto para os policiais, quanto para os moradores". De acordo com o secretário a possibilidades de excessos dos PMs não foi descartada, mas todos terão direito há um "sistema amplo de defesa", como qualquer acusado de crimes. 

Vídeo mostra suspeitos circulando

Um vídeo divulgado pela Polícia Miltar, nesta quarta-feira, mostra suspeitos de tráfico armados circulando na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, pouco antes do confronto que deixou 10 mortos, entre eles um policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope), nesta segunda-feira.

Nas imagens, é possível ver vários homens carregando fuzis, metralhadoras e granadas. Eles se reúnem em uma área logo após o acesso à comunidade. Pouco tempo depois, o Caveirão do Bope entra na favela e os acusados se dispersam nas vielas. O helicóptero da PM flagra outras ações de suspeitos caminhando em outras localidades.

Botaram uma arma na mão dele para incriminar', diz tia de menor morto na Maré

A tia do menor de 16 anos, morto durante operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no Complexo da Maré, Ana Valéria Silva, negou o envolvimento da vítima com o tráfico de drogas. Ela fazia o reconhecimento do corpo de seu sobrinho no Instituto Médico Legal (IML).

Segundo ela, o menor trabalhava como engraxate e estava passando pela comunidade Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, quando foi atingido por um disparo de um PM.

"Depois de morto botaram uma arma na mão dele para incriminar. Nem antecedentes criminais esse menino tinha", declarou.

Manifestação de moradores da comunidade da Maré em à Secretária de SegurançaCarlos Moraes / Agência O Dia

O corpo do menor foi enterrado no Cemitério do Cacuia, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, na tarde desta quarta-feira. Amigos e familiares não quiseram falar com a imprensa.

O corpo de outro morador do Complexo, Eraldo Santos da Silva, de 41 anos também foi enterrado no Cemitério do Cacuia. Ele morreu baleado na cabeça durante confronto entre PMs e traficantes no local, na última segunda-feira.

Durante o cortejo, a cunhada da vítima disse que o homem, que era garçom, morreu no bar onde trabalhava, no Parque União. "Estávamos dormindo e escutamos barulho de tiros, só tivemos conhecimento da morte do Eraldo quase meia hora depois", relatou.

Armas usadas por policias em operação na Maré serão periciadas, diz Civil

Os policiais militares que participaram da operação no Complexo da Maré já foram ouvidos e as armas deles apreendidas e encaminhadas à perícia para confronto balístico. A informação foi divulgada nesta quarta-feira pela Polícia Civil.

De acordo com o delegado Rivaldo Barbosa, titular da Divisão de Homicídios (DH), perícia do Instituto Médico Legal (IML) apontou que todos os nove corpos tinham marcas de tiros e não apresentavam ferimentos por facas

Beltrame diz que denúncias de excessos 'precisam ser apuradas'

Beltrame disse, na manhã desta quarta-feira, que as denúncias de possíveis excessos cometidos pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) durante a operação na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, precisam ser apuradas. 

Policiais fizeram revistas em veículos nas proximidades do complexo durante operaçãoMarcelo Sayão / EFE

"Essas coisas precisam ser apuradas. A especulação não faz bem a ninguém. Mas, assim como tem que apurar se houve excesso, tem que apurar quem matou o sargento. O excesso não é a lógica da polícia", afirmou Beltrame, em entrevista à Rádio CBN.

O secretário disse que os policiais continuma nos acessos à comunidade. "A polícia está nas imediações. Vamos continuar a observar para ver se há necessidade ou não de se tormar outra medida", concluiu.

Segundo o delegado da Delegacia de Homicídios (DH), Rivaldo Barbosa, todos os PMs que participaram da operação no Complexo já foram ouvidos e as armas apreendidas. De acordo com os primeiros laudos, os nove mortos tinham marcas de balas e nenhum ferimento por facas.


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