Ato cobra livre acesso à praia e PM reforça policiamento contra arrastão

Em protesto contra os EUA, cinco pessoas foram detidas. Clinton participou de jantar oferecido por Eduardo Paes

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Moradores de diversos pontos da Zona Norte protestaram ontem, em Ipanema, na altura do Posto 8, contra a ação da Polícia Militar que, após a onda de arrastões na orla, passou a revistar ônibus vindos do subúrbio em direção à Zona Sul. Carregando frango, arroz, maionese e farofa, eles fizeram um piquenique no calçadão, onde também acontecia o primeiro domingo da Operação Verão 2014, da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop). A ação, que contou com o apoio de guardas municipais, fiscalizou 57 ambulantes e barraqueiros e multou dez.

“Os moradores da Zona Sul pensam que são donos da praia. Ficamos revoltados quando vimos, em comentários nas redes sociais, a elite dizendo que era um absurdo ter ônibus de 15 em 15 minutos em direção ao subúrbio”, reclamou a arte educadora Daniela Kity, de 21 anos, moradora da Penha, ressaltando que os alimentos levados à praia eram simbólicos. “Representam o que pensam dos suburbanos que, para os moradores da Zona Sul, são os farofeiros”, disse.

Durante o protesto%2C teve até piquenique no calçadãoSeverino Silva / Agência O Dia

Com faixas e cartazes do tipo “Nós vamos invadir nossa praia”, o grupo, de cerca de 30 pessoas, entoava paródias de músicas populares. “Não pare o ônibus, que eu quero passar. Eu vou à praia, ninguém vai me parar. Seu celular eu não quero roubar”, cantavam, fazendo referência à marchinha de Carnaval ‘Ó, Abre Alas’. “Com essa ação, nos tornamos suspeitos em potencial, o que nos deixa particularmente ofendidos. É inaceitável. Somos farofeiros, mas somos limpos e do bem”, alegou o museólogo Thainã de Medeiros, morador do Complexo do Alemão.

Cães e gatos

A poucos metros dali, no Posto 6, em Copacabana, cerca de 100 pessoas fizeram um manifesto para pedir que a presidenta Dilma Rousseff perdoe a dívida de quase R$ 14 milhões da Suipa, acumulada desde que a entidade perdeu, em 1995, o título de Utilidade Pública e o Certificado de Filantropia.

“Depois disso, tivemos que pagar R$ 40 mil mensalmente ao governo federal. Virou uma bola de neve”, contou a presidente da Suipa, Isabel Cristina Nascimento, rodeada por dezenas de cães e gatos levados por seus donos à manifestação. “Se não perdoarem a dívida, podemos fechar”, lamentou ela.

Apesar de mais PMs nas praias, banhistas não se sentem seguros

?De acordo com a assessoria da Polícia Militar, não houve incidentes na orla durante o fim de semana. Ao todo, 600 homens percorriam o calçadão e a areia da praia, com o objetivo de coibir pequenos furtos a arrastões.

Apesar do reforço no policiamento — há duas semanas, eram 150 —, alguns banhistas ouvidos pelo DIA ainda não se sentiam totalmente seguros. “Realmente aumentou o número de policiais, mas nunca sabemos onde pode começar um tumulto, né? Ainda ficamos com medo”, disse a advogada Kamila Pereira.

PM escalou 600 homens para percorrer o calçadão e as areias no fim de semana%2C contra 150 de duas semanas atrás%2C quando houve os arrastõesSeverino Silva / Agência O Dia

Cerca de 300 homens, entre agentes da Seop e guardas municipais, fiscalizaram as barracas ao longo da orla durante todo o fim de semana. No total, 209 ambulantes e barraqueiros foram abordados e 47 acabaram sendo multados por irregularidades, como a ausência da tabela de preços de mercadorias em local visível e a presença de materiais cortantes.

Um total de 63 espetinhos de camarão foi apreendido pelos agentes. Eles também impediram 349 jogos de altinho e frescobol próximo da água e retiraram 132 cães da faixa de areia. Com a intenção de conscientizar o carioca, 5.500 panfletos com orientações foram distribuídos entre as praias de Ipanema e Leblon.

Cinco detidos em ato contra os EUA

?Não foi apenas o preconceito social que mereceu protestos na orla ontem. A presença do ex-presidente norte-americano Bill Clinton no Rio mobilizou cerca de 40 manifestantes — na maioria, jovens —, em frente ao Hotel Copacabana Palace, onde ele está hospedado. Por mais de uma hora, eles gritaram palavras de ordem contra os Estados Unidos e o capitalismo.

Cinco jovens — quatro maiores e um menor — foram levados à 12ª DP (Copacabana) por crime de desacato contra policiais militares. “Eles ofenderam com palavras de baixo calão e chegaram a ameaçar os policiais com tubos de PVC”, relatou a delegada Soraya Vaz de Sant’ana. Em posse dos manifestantes foram apreendidos capacetes, protetores auriculares e máscaras cirúrgicas.
Os maiores foram liberados após ser ouvidos e assinar termos circunstanciados. O menor foi ouvido e liberado na companhia dos responsáveis. Ele será enquadrado em ato infracional análogo a desacato.

Momentos após ser liberados, os detidos negaram as acusações e disseram ter protestado pacificamente. “Não houve desrespeito ou enfrentamento. Eles foram escolhidos aleatoriamente e detidos. Um deles andava de skate; o outro segurava uma bandeira”, disse o advogado do grupo, Wagner Oliveira.

?Bill Clinton participa de jantar no Rio

O ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, foi o convidado de um jantar oferecido ontem à noite pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB) e o publicitário e empresário Nizan Guanaes no Palácio da Cidade, em Botafogo. Durante a cerimônia, foi apresentado um painel sobre a relação da cidade com a natureza e o desenvolvimento sustentável.

O ex-chefe de Estado norte-americano está na cidade para comandar o nono encontro do Clinton Global Initiative, uma série de debates no Hotel Copacabana Palace sobre sustentabilidade e a busca de soluções para cidades e países em desenvolvimento. Ontem, Chelsea Clinton, filha do ex-presidente, esteve no Morro do Vidigal para concluir a reforma de uma creche da comunidade.

Clinton e a filha foram recebidos pelo governador e pelo prefeitoDivulgação


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