Por adriano.araujo, adriano.araujo
Rio - Na semana em que um idoso morreu após abordagem malsucedida de PMs em Manguinhos, o coordenador das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), coronel Frederico Caldas, admite que parte dessas ações é feita de maneira equivocada pelos policiais. E garante que, para evitar novos casos, vai mudar o conceito das abordagens, levando os 9 mil recém-formados das 36 unidades de volta aos estudos. Para isso, vai criar cartilha para tratar das revistas. Caldas avalia erros e acertos dos 5 anos de pacificação. Quer diminuir a frequência com que o Batalhão de Operações Especiais é acionado para resolver desafios das UPPs: “O futuro está na integração com moradores”.
O DIA: Qual a sua avaliação sobre os cinco anos das UPPs?
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CALDAS: Destaco a redução de homicídios. Se uma vida só tivesse sido poupada, já teria valido. E também a morte em confronto com policiais, que caiu 69%. Ousaria dizer que a pacificação mudou a cara do Rio, porque interrompe um processo de decadência que acontecia no estado. É claro que ainda há locais com problemas pontuais, mas, no geral, os resultados são muito importantes.
'É isso que a gente precisa%3A reeducar o nosso policial'%2C admite coordenador das UPPs%2C Frederico CaldasErnesto Carriço / Agência O Dia

Por que em algumas comunidades a aceitação desse processo está sendo tão difícil?

Tem muito a ver com a história da comunidade em relação ao tráfico. O Alemão e a Penha eram o quartel-general de uma das principais facções. A importância estratégica é proporcional ao desafio que ainda temos hoje. E o comércio da droga continua sendo algo lucrativo. Então, é natural que haja resistência.

E o que as UPPs têm feito para acabar com essa resistência?
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Temos reforço do nosso efetivo. O Bope tem atuado no Alemão todo dia. E reduzimos praticamente a zero os confrontos. O problema persiste na Rocinha e no São Carlos, onde monitoramos se há movimentação de criminosos. Em Manguinhos, existe cultura de hostilidade à presença da polícia. Eu mesmo fui hostilizado e xingado lá. Vai ser um caminho longo, o que não dá é para reduzir o processo.
É possível evitar os confrontos?
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O confronto também demonstra que os policiais estão lá. E isso nos faz tomar outras providências, como lançar mão do Bope. Não vamos criar um clima de guerra nas comunidades. As ações serão pontuais e com cuidado para evitar feridos. O que a gente não quer é que isso (chamar o Bope) seja uma constante.
Mas acionar as forças especiais não significa que o efetivo das UPPs não dá conta do recado?
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São situações pontuais. Uma coisa é muito clara: não vou ficar pedindo ajuda o tempo todo, como um irmão mais novo que chama o mais velho quando toma um cascudo. Eles (forças especiais) têm que ser usados em situações extremas. Nossa capacidade de resposta tem que ser grande e imediata. Mas, se precisarmos, não há constrangimento em pedir.
Então os policiais das UPPs vão fazer operações? O conceito não é de polícia de proximidade?
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O policial tem que estar preparado para tudo, sem perder de vista que é um policial de pacificação. Não estamos mudando o perfil, mas tendo sob o meu comando o maior efetivo da PM, (9 mil) não posso perder a capacidade de dar resposta quando necessário. Por isso, existe um plano de mobilização imediata, onde aciono de 40 a 80 policiais.
Como está sendo feito o combate e prevenção à corrupção, uma das maiores preocupações da PM?
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Vamos lançar a Ouvidoria da UPP em janeiro. A ideia é abrir canal para a comunidade, com telefone e e-mail específico para falar sobre abusos, excessos. Cada semana, ela estará em um local.
Coronel Frederico Caldas admite que parte das ações de PMs é feita de maneira equivocada pelos policiaisErnesto Carriço / Agência O Dia

Isso protege o morador, evitando que ele denuncie na própria UPP ?

Sim. Quando der um problema, a primeira providência é mandar a Ouvidoria. Independente da versão dos policiais, a Ouvidoria vai falar com os moradores, ouvir a família. Vai ser um trabalho preventivo importante.<

Qual a maior lição do caso Amarildo?

Esse fato exige rever nossos procedimentos. Nomeei uma comissão para criar cartilha de abordagem nas comunidades, para mudar o conceito da abordagem, torná-la mais seletiva, mais criteriosa. Fizemos uma autocrítica e percebemos que as abordagens acontecem algumas vezes de forma excessiva, com práticas inaceitáveis. Vamos criar um conceito novo, dentro do princípio do mais absoluto respeito à integridade e à dignidade das pessoas.

O senhor vai mudar a forma de abordagem?
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A técnica de abordagem com segurança, a revista, a busca de armas e drogas, não mudam. Muda o conceito. Na minha avaliação, há uma banalização das abordagens, aborda-se por qualquer coisa e isso tem que ser criterioso. Fazer disso algo absolutamente necessário em relação ao local. Se há informação de que ali há venda de drogas. Pelo comportamento das pessoas. E não o rosto, a cor da pele ou qualquer tipo de orientação que a pessoa tenha.
Foi identificado esse tipo de abordagem pela cor da pele ou outro motivo?
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É difícil caracterizar isso. Não tem provas disso, porque aí a gente estaria dizendo que a conduta dele é preconceituosa. O grande erro que não podemos cometer é achar que todo mundo é suspeito em potencial. Isso é uma premissa equivocada. O fato de morar numa comunidade ou estar ali, não faz de ninguém suspeito ‘a priori’. É isso que a gente precisa: reeducar o nosso policial.
Como será essa reeducação?
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Vai ter treinamento, uma cartilha para estudar essas recomendações. Não o que ele deve fazer do ponto de vista da técnica, que é universal. Mas vou dizer pra ele o princípio que vai nortear essa revista.
Isso evita outros Amarildos?
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Evita os conflitos, a tensão. Abordagens são um grande foco de tensão. O policial é imediatamente cercado por pessoas, falando: “Esse é morador, esse é morador”. Não significa que vai deixar de abordar nem reduzir a quantidade de abordagens. Tem que ser seletivo, saber especialmente por que está abordando aquela pessoa, que tem todo o direito de arguir o motivo. E o policial tem que estar preparado, não pode dizer: “Estou revistando porque quero, porque eu mando”.
O que deu errado ou precisa ser melhorado?
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O que precisa ser aperfeiçoado é a integração com a comunidade. Vamos lançar ano que vem o conselho de segurança, onde as pessoas podem discutir, interferir nas questões de segurança. Todos juntos discutindo as prioridades. O futuro da UPP está em uma maior integração.