Por bianca.lobianco
Rio - Perfumes, espelhos, champanhe e muitas flores. O último dia do ano é marcado por oferendas a Iemanjá, orixá das religiões afrobrasileiras considerada a ‘rainha do mar’. Entre praticantes da umbanda e do candomblé — ou não — , os presentes são uma tradição. Muitos se antecipam à virada, como a aposentada Maria da Glória Hipólito, 65 anos. Moradora de Copacabana, ela foi à praia ontem ofertar três flores — uma ao Sagrado Coração de Jesus e São Jorge, outra a Iemanjá e a última a Santa Bárbara. “Tenho muito o que agradecer, especialmente pela saúde.”

O pai de santo Carlos de Jagun, de um terreiro em Petrópolis, na Região Serrana, explica que a passagem do ano é um momento de gratidão. “Iemanjá é mãe de todas as cabeças. É por meio dela que as coisas fluem e, se a cabeça da gente não estiver boa, nada funciona”, diz.

Hélio Sillman%2C empresário do setor no Mercadão de Madureira%2C comemora as vendas%3A ‘Recebemos encomendas de evangélicos%2C católicos e judeus. Paulo Araújo / Agência O Dia

As oferendas também provocam discussões entre banhistas, moradores e religiosos por causa do acúmulo de materiais na areia depois dos rituais. O presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema, Carlos Monjardim, diz que falta consciência. “A população não olha com bons olhos, pelos vasilhames que ficam na praia. Se fosse a oferenda com o barquinho, mas tem gente que faz um despacho mesmo. Um perigo para os banhistas”, critica.

Para evitar problemas, o pai de santo Carlos de Jagun aconselha o uso de materiais biodegradáveis. “Se levar alguma garrafa de vidro ou de plástico, é só despejar o conteúdo no mar e descartar na lixeira depois”, ensina. Ele diz que os frequentadores dos terreiros têm procurado fazer um único barquinho, reunindo várias oferendas, em vez de espalhar diversos presentes. 
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O presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, acha que a saída para a questão passa pela educação da população e por uma estratégia eficaz de recolhimento dos resíduos. “O desafio é trabalhar a conscientização das oferendas, que são pessoais, íntimas. É igual a champanhe. Todo mundo vai levar na praia, mas o poder público tem que criar logística para atender isso”, aponta.
Pouco antes do Natal, o prefeito Eduardo Paes assinou a ‘Lei do Axé’. O texto não caracteriza como detritos os despachos deixados em matas, encruzilhadas, leitos de rios e praias. Assim, agentes do Programa Lixo Zero não poderão multar os adeptos das oferendas.

Hoje, as equipes da Comlurb farão fiscalização nas praias apenas até as 17 horas. A empresa informou que, pelo tamanho da multidão, não há condições de manter os fiscais. A limpeza da cidade reinicia às seis horas do dia seguinte, com quase quatro mil garis. No Réveillon passado, foram recolhidas das praias cerca de 700 toneladas de lixo.

O pai de santo Alex Camargo garantiu suas duas dúzias de palmas para completar a oferenda a IemanjáPaulo Araújo / Agência O Dia

Comércio aumenta 30%

Se existe uma categoria com a certeza da benção anual de Iemanjá é a dos empresários do setor de produtos religiosos. A devoção à Rainha do Mar em seu habitat, com pedidos e oferendas na noite de Réveillon, faz com que o faturamento do setor cresça, anualmente, cerca de 30% na semana pós-Natal.

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No Mercadão de Madureira, principal pólo de venda de produtos típicos no Rio, a alta procura por flores, bebidas e imagens revela outra peculiaridade: não são apenas os seguidores da umbanda e do candomblé que fazem seus votos de fim de ano. “Recebemos encomendas de evangélicos, católicos e judeus. O sincretismo é a cara do Rio”, se empolga o empresário Hélio Sillman, há 26 anos no setor.
Item mais procurado na lista de oferendas, as palmas registram o maior aumento de vendas (300%). O pai de santo Alex Camargo fez questão de garantir as duas dúzias que usará na receita que diz ser infalível: oferecer à Iemanjá as palmas com velas brancas e um copo d’água, depois de tomar um banho de ervas feito com ‘vence-demanda’, colônia e sal grosso.
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