A cartografia da ditadura

Na memória de ruas, escolas e monumentos, Rio ainda guarda a história que Brasil quer esquecer

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Quando o assunto é o período da ditadura militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1985, as memórias estão por toda a parte no Rio de Janeiro. Embora a maioria das pessoas queira esquecer o passado de repressão, ruas, avenidas, pontes, monumentos e escolas fazem questão de lembrar.

No Leme%2C o monumento a Castelo Branco ganhou faixa ‘Ditador do Brasil 1964’%2C do Grupo Tortura Nunca MaisSeverino Silva / Agência O Dia

Na capital e Baixada, estudantes aprendem sobre feitos militares — como a tortura e assassinato de ativistas, a censura e o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) — em colégios que levam o nome de presidentes do regime. Há pelo menos quatro no estado: o Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, em Mesquita, e as escolas municipais Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, em Sulacap; Presidente Médici, em Bangu; e Arthur Costa e Silva, em Botafogo.

Em dezembro do ano passado, a Comissão da Verdade do Rio, que trabalha para esclarecer as violações dos direitos humanos praticados durante a ditadura, conseguiu mudar o nome do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva, em Nova Iguaçu, para Abdias do Nascimento, em homenagem ao ativista do movimento negro. O próximo passo será tentar mudar o nome do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, em Mesquita. A ideia é que o novo nome seja votado pelos próprios alunos e professores.

Para o presidente da comissão, Wadih Damous, o ideal é que se tire todas as referências dos militares do regime do Rio de Janeiro.

“Dar o nome de alguém a um lugar, sobretudo a uma escola, é o reconhecimento daquilo que a pessoa contribuiu à sociedade, mas, se ela violou os direitos humanos, não pode merecer a homenagem”, disse. De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação, não há nenhum plano para que esses nomes sejam modificados.

Nome na certidão

Também é fácil encontrar vielas e avenidas com nomes dos presidentes militares. Até a Ponte Rio-Niterói ainda carrega, embora só em sua certidão de nascimento, o nome Presidente Costa e Silva. Mas há mobilizações para a retirada. Tramita um projeto de lei na Câmara dos Deputados, de autoria do deputado Chico Alencar (Psol-RJ), que altera o nome para Ponte Herbert de Souza - Betinho. Já uma ação civil pública do Ministério Público Federal que pede a retirada foi distribuída na semana passada para a 10ª Vara Federal.

O Instituto de Estudos da Religião (Iser) prepara uma cartografia de 50 pontos de memória da ditadura na cidade. O estudo, que será lançado no dia 26 de março, incluirá pontos ainda não tão divulgados, como uma escola municipal em Vila Isabel, que também leva o nome de um militar da linha dura’ — General Humberto de Souza Mello.

Estátua de ex-presidente é alvo de protesto

Para a Avenida Castelo Branco e a Praça Emílio Garrastazu Médici, no Maracanã, não há planos de mudança, assim como na Ponte Rio-Niterói.

Já a imponente estátua de Castelo Branco, na Praça Júlio de Noronha, no Leme, já foi alvo de protesto, organizado por movimentos sociais, como o Tortura Nunca Mais, em que ganhou uma faixa com os dizeres ‘Ditador do Brasil 1964’. No final, o monumento recebeu tintas vermelhas.

Para apagar da memória

?Para o historiador da UFRJ Carlos Fico, o Rio ainda está atrasado em manter referências a militares da ditadura. “Países que viveram regimes autoritários, como a Argentina e Espanha, já retiraram esses nomes, regra geral quando há transição de modelo político. No Brasil, não vejo movimento forte e interesse da sociedade para isso. Não faz sentido manter esses nomes em monumentos. Não se deve homenagear pessoas que apoiaram regimes autoritários”, destacou.

Já para a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Victória Olímpio, manter estas homenagens significa ajudar a perpetuar uma história que o Brasil quer esquecer. “É um absurdo, até em memória dos que morreram por conta do regime, ainda ter estas homenagens. Com isso, se mantém uma história de terror e tortura. De pessoas que torturaram e mataram”, disse.

Além da mobilização para mudar os nomes das escolas, a Comissão da Verdade pretende realizar outros atos para a ‘descomemoração’ do Golpe Militar de 1964, que completa 50 anos em março, como o seminário que acontece dia 13, mesma data do comício do presidente João Goulart, na Central do Brasil.

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