Por thiago.antunes

Rio - No pequeno quarto da humilde casa na Favela do Congonha, em Madureira, a cama continua arrumada, e os pertences, intactos. Sobre o móvel, a camisa do uniforme da auxiliar de serviços gerais Cláudia Ferreira da Silva, de 38 anos, lembra aos quatro órfãos e quatro sobrinhos criados por ela que a mãe não vai mais vestir a roupa. Hoje, a família dela vai se encontrar com o governador Sérgio Cabral e o comandante da PM, coronel Luís Castro. Ela foi morta domingo após ser colocada ferida à bala na mala de carro da PM e o corpo arrastado pelas ruas.

“Foi um ato desumano, que está sendo apurado com rigor”, afirmou Castro. Mas os filhos da vítima se dividem em cultivar as lembranças e a indignação pela morte e forma de socorro prestado por três PMs. “Não podemos ficar só com palavras. Queremos justiça”, desabafou Thais Ferreira, 18 anos, filha de Cláudia. O DIA teve acesso aos depoimentos dos três militares presos por colocar a vítima na caçamba da viatura. Como a mala abriu, ela ficou pendurada pela roupa e foi arrastada por cerca de 350 metros.

Os filhos de Cláudia Ferreira se emocionam ao ver o uniforme que a auxiliar de serviços gerais usava no Hospital Marcílio Dias%2C no Lins%2C onde trabalhavaCarlos Moraes / Agência O Dia

Eles foram ouvidos segunda-feira na 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM). Os subtenentes Rodney Miguel Archanjo e Adir Serrano Machado e o sargento Alex Sandro da Silva Alves afirmaram que entraram na comunidade da Congonha só para resgatar a vítima, a pedido do 1º tenente Rodrigo Medeiros Boaventura, que comandava operação.

Segundo Boaventura, a vítima ainda respirava quando a viatura chegou. Ela foi colocada na caçamba pelo subtenente Adir, com a ajuda do cabo Gustavo Ribeiro Meirelles. Enquanto, o resgate era feito, segundo Adir, manifestantes tentaram roubar o fuzil de Archanjo. Segundo os PMs, eles também foram chamados de ‘assassinos’.

Claudia foi baleadaReprodução

No trajeto da comunidade, em Madureira, ao Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, populares tentaram avisar aos PMs que o corpo de Cláudia estava sendo arrastado. Porém, segundo Alex, que dirigia a viatura, eles só perceberam quando o sistema de alarme da viatura foi acionado na Estrada Intendente Magalhães, indicado que a tampa da mala havia sido aberta. Os policias receberam voz de prisão do major Eric Santos da Silva, do Serviço Reservado do batalhão, que recebera informações sobre caso em uma ligação anônima.

Presos em flagrante, os três policiais estão presos no presídio Bangu 8 pelo prazo de cinco dias. Isso porque, no episódio de socorro, eles descumpriram regras do artigo 324, do Código Penal Militar. Hoje, os três acusados vão prestar depoimento na 29ª DP (Madureira). Parentes de Cláudia também serão ouvidos.

Tiro acertou o coração

Além de atestar que Cláudia foi morta com um tiro no coração, o laudo cadavérico da auxiliar de serviços gerais revelou os inúmeros ferimentos que ela teve pelo corpo, provocados ao ser arrastada pela viatura da PM por cerca de 350 metros, quando os policiais cruzavam a Estrada Intendente Magalhães, na altura de Marechal Hermes.

De acordo com o documento, ela não morreu por causa dos ferimentos, mas devido ao tiro que levou no peito. O projétil entrou pelo coração e saiu pelo pulmão, dilacerando ambos os órgãos. Como o tiro foi transfixante, não há projétil, o que dificultará o exame de balística para detectar de que arma partiu o disparo.

Claudia teve várias escoriações, espécie de arranhões que são provocadas por contato com superfícies rugosas, no caso dela, o asfalto. Ela ficou ferida nos dois lados do rosto, na bochecha e queixo, no braço direito, perna e no cotovelo esquerdo. O exame não constatou nenhuma lesão na cabeça.

Na dor, a solidariedade

Na casa da família, o inconformismo se mistura à apreensão. “Nossa renda familiar não passava de R$ 1,6 mil. O salário da minha mãe era metade do orçamento. Não sabemos como vai ser daqui em diante”, desabafou a filha Thais Ferreira da Silva, de 18 anos. Os gêmeos Pablo e Pâmela completam 10 anos domingo. Mas a data, que seria mais um dia de luto, promete ser de homenagens graças à solidariedade de vizinhos e organizações sociais que realizarão um dos últimos sonhos de Cláudia: a festa de aniversário para o casal de filhos. Parentes planejam um momento de oração.

Muro na entrada da comunidade é pichado com frase relatando saudade de 'Cacau'%2C apelido de CláudiaDouglas Viana / Agência O DIA

Moradores dizem que a mala da viatura já havia sido aberta antes, quando os PMs saíram em alta velocidade. “A mala abriu quando passaram por um quebra-molas. As pessoas têm medo de prestar esse depoimento”, garantiu Thaís. A família quer rigor nas investigações. “As armas de todos os PMs no morro devem ser periciadas”, disse Júlio César, ao afirmar que a irmã teria sido atingida à queima-roupa.

Pais de João Hélio não viram vídeo

Os pais do menino João Hélio Fernandes Vieites, morto aos seis anos em 2007, quando foi arrastado pelo asfalto numa ação de ladrões, não quiseram ver o vídeo do corpo de Cláudia na mala da viatura da PM.

“Quando aparece uma notícia assim, passa um filme na cabeça, com tudo que aconteceu naquela época”, comentou o comerciante Hélio Lopes Vieites, tio de João Hélio.

Ele disse que o irmão Elson ficou mais retraído, anteontem. Os dois trabalham juntos. “Sabemos o que a família está passando, porque sentimos essa dor também”. As condenações de quatro dos cinco acusados de arrastar o menino por sete quilômetros variaram de 39 anos a 45 anos. O quinto réu era menor de idade e cumpriu pena socioeducativa por três anos.

Sobre a morte de Cláudia, dois dos três policiais do 9º BPM (Rocha Miranda) envolvidos já responderam processos arquivados por auto de resistência (morte de suspeito em confronto). Os subtenentes Adir Serrano Machado e Rodney Miguel Archanjo e o sargento Alex Sandro da Silva Alves fazem parte do Grupamento de Ações Táticas (GAT) do 9º BPM.

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