Por thiago.antunes

Rio - O Complexo da Maré está a mais de 10 mil quilômetros do Oriente Médio. Porém, assim como nos conflitos entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza, a ideologia da guerra nesse conjunto de favelas do Rio também envolve os mais jovens. Na Rua Evanildo Alves, entre a Baixa do Sapateiro e a Nova Holanda, favelas controladas por traficantes rivais, batalhas de pedras como a de domingo — que culminou com a morte de Vinícius Guimarães, de 15 anos, assassinado com um tiro na boca durante a confusão — sempre fizeram parte da infância de centenas de crianças. O jovem foi enterrado ontem no Cemitério do Cacuia, na Ilha do Governador.

Enquanto os mais velhos duelavam à bala, fato comprovado por centenas de perfurações em casas, comércios, postes e orelhões a cada esquina da via, os mais novos se enfrentavam com pedradas e estilingues. Inflamados pela rivalidade entre Terceiro Comando Puro e Comando Vermelho, os ‘ataques’ ocorriam quando a presença de crianças de outras áreas era detectada na ‘divisa’ que impedia a livre circulação.

O corpo de Vinícius Guimarães foi enterrado ontem no Cemitério do Cacuia%2C na Ilha do Governador%3A o suspeito de matá-lo foi identificado e está sendo procuradoSeverino Silva / Agência O Dia

Porém, no domingo, além de pedradas, tiros mataram Vinícius e deixaram outros dois adolescentes feridos. A Divisão de Homicídios (DH) identificou o atirador, que é menor de idade e está sendo procurado. “Meu filho estudava e não tinha qualquer ligação com o tráfico ou passagem na polícia. Mas um coleguinha o chamou para ir em uma destas guerras de pedras. As crianças aqui cresceram assim, com a influência dessa guerra, pois não podem andar livremente. Com isso, acabam achando que fazem parte das facções, que esta guerra é deles também", desabafa a auxiliar de serviços gerais Roseane Guimarães, de 31, que vivia com o filho na Vila dos Pinheiros.

Para ela e outros moradores, a rivalidade só vai deixar de existir diante da presença da polícia e de projetos sociais para as crianças. “Se aquelas bandeiras (do Brasil e do Rio, símbolos da ocupação) tivessem sido fincadas na Rua Evanildo Lopes, talvez não estivesse enterrando meu filho hoje (ontem). Isso tem que mudar, apesar de acharmos que as coisa não serão muito diferentes”, completou. Douglas da Silva Pontes, de 13, e Ronaldo Gomes da Silva, de 17, permanecem internados, mas não correm risco de vida.

Polícia fará reconstituição de mortes em junho

A Divisão de Homicídios (DH) vai fazer na terça-feira a reprodução simulada de três das dez mortes ocorridas na Nova Holanda, em junho, durante confronto entre traficantes e policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Segundo a DH, foi comprovado que as outras vítimas eram traficantes e morreram em confronto. Serão analisadas as circunstâncias da morte do PM Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, do garçom Eraldo Santos da Silva e de outra vítima para esclarecer dúvidas sobre esses casos.

Centenas de marcas de tiros podem ser vistas em casas que ficam entre a Baixa do Sapateiro e Nova HolandaSeverino Silva / Agência O Dia

Com a ocupação da região pelas forças de segurança, a reprodução simulada deverá acontecer à noite, mesmo horário em que ocorreu o confronto. A reconstituição estava marcada para antes do dia 8, mas, com o anúncio da tomada da região, ela foi adiada para terça-feira.

Desde o confronto, os agentes da DH monitoram os exames de balística feitos nos armamentos apreendidos na Maré na tentativa de encontrar a arma de onde partiu o tiro que matou o PM. Mas, como O DIA noticiou na época com exclusividade, o aparelho de raio X do Instituto Médico-Legal estava quebrado, o que dificultou a localização e a retirada de balas e fragmentos dos projéteis nas vítimas e, consequentemente, o confronto balístico.

Exército está pronto para a ocupação

Por determinação do Ministério da Defesa, as Forças Armadas poderão ocupar o Complexo da Maré a partir do primeiro minuto de sábado, em apoio às forças de segurança pública estaduais. A informação foi divulgada pelo Comando Militar do Leste ontem. Cerca de dois mil homens do Exército devem ocupar as 15 favelas da região.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, determinou o emprego das tropas em missão de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), conforme pedido feito pelo governador Sergio Cabral. O aparato militar permanece, inicialmente, até o dia 31 de julho, sob o comando do general Roberto Escoto, comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista. Ontem, policiais militares apreenderam drogas, armas e radiotransmissores na Maré.

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