Cenas Cariocas: Você não tem nada com isso, mas tem

Fossem cervejas, bastava botar no gelo. Mas remédios? E se alguém estivesse passando mal em casa? Uma criança com febre?

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Domingão à tarde, o boteco da Rua das Laranjeiras cheio. O relógio marca: dez minutos do primeiro tempo na decisão do Carioca, Flamengo e Vasco. Desce outra gelada. Muita gente que passa pela calçada reduz o passo para ver algum lance, a TV do bar é generosa. De repente para um cara de bicicleta. Embica na direção da TV e relaxa, que a tarde é uma criança. Tem um saco plástico pendurado no guidão.

Entregador assiste jogo%2C enquanto cliente espera pelos remédios que estão na sacolaAlexandre Medeiros / Agência O Dia

Ninguém tira o olho da TV. É bola lá e cá. Já vamos para 20 minutos de jogo. Aí um senhor destoa da galera e se dirige para o sujeito da bicicleta. No meio daquele clima de festa, só ele tinha percebido que o saco plástico pendurado no guidão estava até grampeado com nota fiscal — e levava remédios. Um monte deles. Alguns até de tarja preta, dava para ver. O cara da bicicleta, bastava um olhar mais atento, tinha até logotipo na camisa: era um entregador de farmácia.

“O senhor não acha que deve primeiro entregar a encomenda e depois ver o jogo? Não está trabalhando? Quem pediu os remédios deve estar precisando deles. Vai ter que esperar o jogo acabar?”, questionou o senhor. Sem nem se encabular, o entregador retrucou: “É o senhor que pediu os remédios? Então o que tem com isso?!”

Teoricamente, nada. Mas o agravante de tratar mal a quem foi apenas alertá-lo sobre a desfaçatez de vagabundear em pleno serviço, e ainda mais com remédios, tirou o senhor do sério. Mas sem perder a classe. Ele deu a volta por trás do sujeito, anotou os números da farmácia, sacou seu celular e ligou. Atendeu um certo Adriano, que se disse o encarregado do plantão, ouviu o relato e disse apenas que iria “chamar a atenção” do entregador quando voltasse da rua.

Não, Adriano, isso não é o suficiente. Lá se iam 35 do primeiro tempo. Não era possível que o entregador fosse esperar os 45, mais os acréscimos, para só então se dignar a fazer a entrega. Fosse uma pizza, era só esquentar. Fossem cervejas, bastava botar no gelo. Mas remédios? E se alguém estivesse passando mal em casa? Uma criança com febre?

Foi então que o senhor imaginou um jeito de tirar o entregador de sua boçalidade. Antes que o juiz apitasse o fim do primeiro tempo, foi-se ele na direção do sujeito e, sem elevar a voz, disparou: “Só espero que um dia, se a sua mãe precisar de um remédio urgente e pedir por telefone numa farmácia, não caia nas mãos de alguém como você.”

Nem esperou resposta, que não ia ouvir outro desaforo. De longe, ele viu o entregador baixar a cabeça, olhar para os lados sem graça e esperar a bola sair em lateral, talvez para não dar pinta de vencido. Daí deu ré na bicicleta e partiu. Na telinha, o relógio marcava: 41 minutos de jogo.
Crianças, não repitam isso em casa. Mas, às vezes, botar a mãe no meio resolve.

?Mudando de assunto

Não é usual uma coluna fazer suíte de si mesma (no jargão jornalístico, suíte é dar prosseguimento a um assunto já abordado). Ainda mais coluna semanal. Mas não posso deixar de fazer três breves registros sobre a lenta agonia da Rua da Carioca, tema de ‘Cenas Cariocas’ do domingo passado.

O primeiro é auspicioso. O sobrado de número 38 está sendo reformado para abrigar a Casa do Choro, futura sede da Escola Portátil de Música, projeto tocado pela cavaquinista Luciana Rabelo. Ele vem resgatar a tradição musical da Rua da Carioca, abalada pelo fechamento da centenária A Guitarra de Prata — quase em frente, no 37. Salve, salve.

O segundo é constatar que a coluna, de alguma forma, contribuiu para uma espécie de levante popular contra o que estão fazendo com a Rua da Carioca. Na quinta-feira, bem em frente ao número 37, ocorreu o enterro simbólico do Banco Opportunity, que comprou duas dezenas de imóveis da rua, aumentou os aluguéis e está despejando os que não conseguem pagar. Com isso, a rua que abriga o maior número de casas centenárias da cidade vai se tornando um cemitério de nossa memória cultural.

O terceiro registro vem de um leitor. Faço minhas as palavras de Flávio José de Almeida, aqui resumidas em sua essência mais carioca: “Li sua coluna e fui relembrando com lágrimas nos olhos cada momento vivido nas inúmeras passagens e estadas nessa rua tão aclamada pelo povo e tão abandonada pelo poder público. Me lembro em 1963, aos 13 anos de idade, logo que recebi meu primeiro salário, fui direto à loja Vesúvio para comprar o meu primeiro guarda-chuva. No segundo mês comprei meu primeiro vinil do Roberto Carlos nas lojas Palermo. Foi na Rua da Carioca que vi de perto o saudoso Nelson Cavaquinho. A rua era o trajeto obrigatório do Cordão da Bola Preta, que encerrava seu desfile nos bares da Praça Tiradentes. Os meus filhos, eu consegui levá-los para passear pela Rua da Carioca, hoje não sei se eles levariam meus quatro netos para esse passeio. Tomara que o prefeito leia a sua coluna e decida restaurá-la, quem sabe acabando com o trânsito e transformando-a em calçadão para passeios, que restaure os casarões antigos e proclame-a patrimônio público cultural.”

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