Favela da Telerj: Famílias acampam sem banho ou alimentação

Cerca de 400 pessoas alegam não ter para onde ir depois da desocupação dos prédios da Oi, que tiveram a energia cortada e foram isolados por tapumes

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Com quase nove meses de gravidez%2C Stefany está na porta da prefeituraMaíra Coelho / Agência O Dia

Rio - Mesmo grávida de quase nove meses, Stefany Montenegro, 20 anos, é uma das cerca de 400 pessoas que protestam em frente à Prefeitura do Rio desde a tarde de sexta-feira, depois da desocupação dos prédios da Oi. “Estou com a roupa do corpo. Perdi o pouco que tinha: colchão, comida e até o enxoval do bebê. Não tenho para onde ir”, diz a jovem, que está desempregada.

Com uma cama improvisada por cobertas, ela está gripada, enfrenta dores nas costas e passou a noite como a maioria: sem banho e se alimentando apenas das doações que chegam da população que para de carro em frente à prefeitura.

Em situação semelhante, Carlos de Souza Gomes, 34 anos, cuida do pequeno Júnior, de apenas 2 meses. “Não sobrou nada. Entre as minhas coisas e as dele peguei as duas bolsas dele, mas os pacotes de fraldas ficaram por lá”, desabafou.

Os ex-ocupantes dizem que não foram procurados por nenhum representante do município para fazer o cadastro social. Segundo eles, a única ação tomada ocorreu na noite da sexta-feira, quando duas vans da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social estiveram no local para oferecer vagas em abrigos municipais, o que foi recusado por todos.

50 policiais

Já no terreno da Oi, funcionários da Light cortaram a energia do local e outros terceirizados passaram o dia instalando tapumes ao redor do prédio, além da construção de um muro de concreto na antiga entrada. Mais de 50 policiais vigiavam os trabalhos.

Neste sábado, o prefeito Eduardo Paes disse que a compra do terreno pelo prefeitura não ocorreu, como publicado anteriormente, por culpa da empresa. “A cobiça da Oi foi muito grande. Ela está cuidando muito mal da sua propriedade”, disse.

Não houve entendimento sobre o valor de quase R$ 20 milhões, previsto em termo de compromisso firmado em 2012 para a construção de moradias no local conhecido como Favela da Telerj, como foi publicado ontem no Informe do DIA. A prefeitura informou que assistentes sociais cadastraram mil pessoas na sexta.

'Ainda estou com o projétil'

Internado no Hospital Souza Aguiar desde sexta-feira, o entregador de pizza Maycon Gonçalves Melo, 25 anos, ainda está com um projétil alojado no olho esquerdo. Ele foi um dos 19 feridos na desocupação do terreno da Oi, no Engenho Novo, sexta-feira. A família diz que ele perdeu a visão do olho devido a estilhaços de alumínio.

Em um depoimento gravado no hospital ontem, Maycon contou que não sabe direito como foi atingido. Com os olhos enfaixados e abalado, ele revelou que já tinha deixado o prédio com medo da violência e quando já estava na rua precisou sair do bairro. Nesse momento, foi barrado por PMs que fechavam os acessos à comunidade. “Peguei a minha moto e, quando cheguei no beco 18 de Janeiro, o (Batalhão de) Choque já estava ali dizendo que não ia entrar ninguém. Ficamos parados para ver qual seria a atitude deles para a gente poder sair da comunidade”, contou.

Maycon disse que pouco depois sentiu que tinha sido atingido. “Senti um projétil bater na minha vista e saí gritando pela minha mãe. Fomos para a UPA. Ontem, falaram que iam fazer a cirurgia, mas não fizeram e estou com o projétil até agora na minha vista”, desabafou.

Com o trabalho, Maycon sustenta a mulher, dois filhos e ainda ajuda a mãe, que só tem uma perna. “A ocupação era uma chance de conseguir alguma coisa própria para a minha família”, afirmou ele.

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