Grevistas que aderiram à paralisação serão descontados, afirmam empresas

Apenas 44% dos motoristas trabalharam ontem. Polícia investiga depredações a pedido do MP

Por thiago.antunes

Rio - Sem o reajuste esperado e ainda com uma diária descontada do salário. Com o fim da greve, esta é a situação de boa parte dos rodoviários que aderiu ao segundo dia de paralisação. De acordo com a Rio Ônibus (associação das empresas), o ponto de quem não trabalhou ontem sem justificativa foi cortado pelas viações, já que liminar do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) considerou a greve ilegal. Agora, caberá às empresas analisar cada caso e chegar ao número exato de rodoviários que ficou de braços cruzados por causa da greve.

Em frente à Central do Brasil%2C muitos passageiros esperaram longas horas para conseguir embarcar nos ônibus pelo segundo dia consecutivoCarlos Moraes / Agência O Dia

A Rio Ônibus contabilizou que somente 44% da categoria trabalhou ontem. Já a Secretaria Municipal de Transporte fechou o cálculo em 40%. “Quando a Justiça determina, tem que cumprir. É um absurdo, um desrespeito total ao tribunal continuar em greve quando foi considerada ilegal. Mesmo assim, a greve perdeu força ontem porque, ao longo do dia, o número de ônibus nas ruas foi aumentando”, afirmou Lélis Teixeira, presidente da Rio Ônibus.

O órgão informou ainda que a área mais afetada pela redução foi a Zona Oeste. No consórcio Santa Cruz, apenas 23% dos coletivos circularam, sendo que uma empresa teve apenas 5% da frota disponível. Ontem, 19 ônibus foram depredados, 18 deles na Zona Oeste. A Polícia Civil informou que abriu inquérito para apurar as depredações de ônibus durante os dias de paralisação.

Hoje, às 15h, líderes grevistas se reúnem com a categoria na Candelária para definir os rumos do movimento. Eles ainda falam em tentar nova negociação com sindicato patronal e autoridades para conseguir novo reajuste. E a população pode sofrer novamente, já que as lideranças falam em outra paralisação caso não cheguem a um acordo.

Ontem muita gente ainda passou aperto para ir trabalhar. Foi o caso da doméstica Jussara Cristina dos Santos, 35 anos, que enfrentou problemas pelo segundo dia consecutivo. “Segunda-feira eu cheguei na Central e voltei pra casa porque não tinha como ir para o trabalho. Hoje (ontem) preciso chegar lá pra não faltar pelo segundo dia seguido”, contou a doméstica.

Precisando embarcar em dois ônibus para chegar ao restaurante em que trabalha, a ajudante de saladeira Mariana Lara Passos, 24, estava atrasada mais de uma hora quando conseguiu desembarcar no Centro. Ela ainda esperou outro coletivo para a Urca. “Quando chego aqui já tem ônibus parado. Hoje estou na fila há mais de 30 minutos e nenhum apareceu.”

>>>GALERIA: Segundo dia da greve tem poucos ônibus e muitas filas

Delegado ouve testemunhas e apura quebra-quebra

A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) ouviu ontem as primeiros cinco testemunhas do inquérito que investiga os danos em ônibus ocorridos nos dias de greve. Entre elas está Sebastião José da Silva, vice-presidente do Sintraturb Rio (sindicato dos rodoviários), que negou envolvimento da entidade com os atos de depredação.

Sebastião José da Silva%2C vice-presidente do Sintraturb%2C prestou depoimento ontem na Cidade da Polícia sobre as depredações de ônibusPaulo Araújo / Agência O Dia

A investigação foi aberta na terça, a pedido do promotor de Justiça Alexandre Murilo Graça, do Ministério Público do Rio, em documento que manifesta o “receio das empresas com a ocorrência de danos aos coletivos por parte dos dissidentes do Sintraturb Rio”. O delegado Alexandre Petralanda disse que o objetivo é “apurar quem está incentivando o quebra-quebra”.

Ele não quis adiantar os próximos nomes a serem ouvidos. Disse, porém, que os líderes do movimento grevista ainda não foram denunciados e garantiu que as ameaças relatadas por alguns rodoviários também serão apuradas no inquérito. “Não sabemos ainda se foram casos isolados ou se foi uma quadrilha que realizou estes atos. Vamos investigar qualquer crime que prejudique o transporte público da cidade, afirmou o delegado”.

Na Baixada, baixa adesão à paralisação

Apesar da baixa adesão ao longo do dia de ontem, a greve dos rodoviários da Baixada Fluminense atrasou a saída para o trabalho de muitos trabalhadores da região na madrugada. Na Rodoviária de Nova Iguaçu, havia passageiros aguardando desde 4h e os ônibus só começaram a estacionar nos pontos para o Rio perto das 6h.

O bombeiro hidráulico Adão Cosme, de 62 anos, aguardava o primeiro coletivo da empresa Evanil, que sempre sai às 4h30 para Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. “No Rio, sabia da greve. Aqui não. Se não der volto para casa.” O Transônibus, sindicato que representa empresas de ônibus de Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Japeri e Queimados, informou que a adesão máxima chegou à 20% da frota e, por volta das 17h, 91% dos ônibus já estavam circulando. Segundo a entidade, 26 ônibus sofreram depredação.

Passageiros enfrentaram longas filas para embarcar em ônibus na Central do BrasilFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

TRT: multa é para sindicato

O Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ) explicou ontem que o Sindicato Municipal dos Trabalhadores Empregados em Empresas de Transporte Urbano de Passageiros (Sintraturb) é a parte legítima que representa os trabalhadores da categoria e, por isso, foi para a entidade a multa no valor de R$ 50 mil, caso não fosse mantido ontem 70% dos ônibus nas ruas. “Fomos notificados e já entramos com recurso contra a decisão no TRT”, disse Sebastião José da Silva, vice-presidente do Sintraturb.

Na ação de dissídio de greve, movida pela Rio Ônibus, é o Sintraturb que aparece como réu. Segundo o TRT, o advogado do grupo dissidente — responsável pela greve — apresentou uma petição para se habilitar no processo, o que faria com eles também fossem réus na ação. No entanto, a desembargadora Maria das Graças Cabral Viegas Paranhos indeferiu o pedido.

Na Vila Mimosa, atrasos e muitas faltas ao serviço

A greve de ônibus prejudicou o movimento na Vila Mimosa, na Praça Bandeira. Foram dois dias de atrasos e faltas das profissionais do sexo. E ainda pela manhã de ontem, clientes, que percorriam as galerias de boates, tiveram que se esforçar em busca de um programa. No Clube 59, uma das casas de entretenimento, a gerente Marlon Ferreira teve que direcionar a clientela à concorrência. “Nenhuma garota apareceu durante o primeiro dia de greve e tenho dúvidas para até o fim da greve. Apareceu cliente e estava com a casa vazia”, lamentou.

Infração dupla%3A além do transporte não ser regulamentado%2C mototaxista leva passageira sem capacete%2C o que infringe as normas de trânsitoAlessandro Costa / Agência O Dia

Para quem compareceu ao serviço, os dias de greve de ônibus foram como de qualquer pessoa em dia de paralisação dos rodoviários: longas filas de esperas pelo ônibus. Algumas garotas e garotos de programa dormiram no local de trabalho. “Sai de casa às 6h para chegar aqui depois das 10h. Ontem, eu só apareci porque soube da greve e dormi perto, em Olaria. Mas, o trem estava bem cheio”, relatou um dos garotos de programa, que mora na Baixada.

Em meio às boates vazias, as gerentes reclamam sobre a ausência das profissionais. “A greve afetou o trabalho aqui. Das 15 meninas, apenas duas apareceram até agora. E teve muita procura”, disse uma gerente. Vizinha a ela, outras meninas só chegaram porque vieram de táxi. Uma das profissionais do sexo, moradora de Nova Iguaçu, já traçou um plano B para a greve dos rodoviários cariocas e da Baixada Fluminense. “Só vou voltar para casa na segunda-feira. Estou desde terça aqui”, conformou-se.

Passageiros enfrentaram longas filas para embarcar em ônibus na Central do BrasilFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

Polícia Civil pode parar

Outra categoria que pode parar é a de policiais civis. Em assembleia marcada para o dia 21, os agentes vão definir se param ou não. Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Rio (Sindpol), Francisco Chao, a negociação salarial já dura um ano.

“O governador (Luiz Fernando Pezão) disse que nos atenderia. Esperamos uma resposta até quarta-feira, quando a categoria vai discutir o que fazer”, disse. Eles reivindicam a incorporação da gratificação de R$ 850 do Programa Delegacia Legal ao salário base dos agentes. A Associação de Cabos e Soldados da PM informou que vai encaminhar nova proposta salarial ao governo.

Tarifa de trens e metrô sobe no domingo

As tarifas de trens e metrô ficarão mais caras R$ 0,30 no domingo para quem não tiver o cartão do Bilhete Único, e passarão a custar R$ 3,20 e R$ 3,50, respectivamente. Até segunda-feira, os moradores do Grande Rio que ainda não têm o cartão podem se cadastrar nos postos da RioCard em estações das duas concessionárias, levando identidade, CPF e um comprovante de residência.

Frota circulou com apenas 44% da capacidadeFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

O reajuste de 5,6% foi anunciado em 18 de março pelo governo, mas tinha prazo de 60 dias para entrar em vigor. No metrô, os postos da RioCard funcionam na Carioca, Estácio, Siqueira Campos, Gal. Osório, de 10h às 19h, e em Coelho Neto e Pavuna, de 11h às 20h. Na SuperVia, estão na Central, Madureira, Deodoro, Nilópolis e Nova Iguaçu.

Engenheiros mantêm paralisação

Pelo segundo dia seguido, engenheiros, arquitetos e geólogos da Prefeitura do Rio foram às ruas protestar por aumento salarial. A categoria formada por 1.200 profissionais entra hoje no terceiro dia de paralisação. Ontem cerca de 500 pessoas ocuparam as galerias e a escadaria da Câmara Municipal para pedir o apoio da população e dos vereadores. A Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (Seaerj) estima que 800 servidores aderiram à greve.

Segundo o presidente da Seaerj, Joelson Zuchen, o prefeito Eduardo Paes não retomou as negociações, iniciadas em março. Ele informou que os salários da prefeitura estão com defasagem de cerca de 70% em relação ao mercado, o que provoca a evasão de profissionais e a não reposição do quadro. 

Engenheiros e arquitetos que trabalham na prefeitura fazem ato na escadaria da Câmara MunicipalAlessandro Costa / Agência O Dia

Atualmente, o salário bruto inicial é de cerca de R$ 4,7 mil.“Chegamos a uma situação absurda. Profissionais terceirizados ganham três vezes mais do que nós, que somos responsáveis pela fiscalização do serviço e pela assinatura da liberação do pagamento às empresas executoras”, criticou o engenheiro Mozart Rangel.

A Secretaria Municipal de Obras garantiu que a paralisação não afetou o cronograma de obras executadas pela prefeitura, que inclui o BRT Transcarioca. A prefeitura informou que está analisando as reivindicações da categoria. Uma nova assembleia marcada para hoje, às 14h, decidirá pelo fim ou pela continuidade da paralisação.

Opinião dos pré-candidatos sobre o corte no ponto dos professores

Lindbergh Farias (PT)
— Espero que o fim desse processo produza melhorias na educação. Mas esse caminho só se chega pelo diálogo. Eu vejo com muita preocupação a postura do governo do estado de querer cortar o ponto dos professores. Mais uma vez, está faltando sensibilidade e diálogo por parte do governo. Os professores não podem ser tratados com desrespeito e truculência, como aconteceu no ano passado, quando houve repressão policial aos protestos da categoria. A greve é um direito legítimo de todo trabalhador. Quando eu fui prefeito de Nova Iguaçu, consegui aprovar o melhor plano de cargos e salários do estado, fui para as assembleias e dialoguei com a categoria. É preciso valorizar o professor, esse segmento tão importante para a sociedade.

Marcelo Crivella (PRB)
— Negociaria com os professores. Eles têm razão em reclamarem. O Rio não teve uma escola entre as 500 primeiras do sudeste no Ideb por falta de investimentos. Enquanto entre 2007 e 2012, os estados brasileiros em média investiram 25% a mais em educação, o Rio só aumentou 4%. Portanto, peço a eles que já suportaram por quase oito anos o atual governo, com tanto idealismo e resignação, que tenham um pouco mais de paciência, voltem às aulas, e vamos juntos no próximo governo voltar a investir na educação pública do Rio e fazê-la a melhor do Brasil.

Anthony Garotinho (PR)
— Tem que manter o diálogo com os professores. O atual governo de Pezão e Cabral não tem desculpa para não dar aumento aos professores. Ele teve dinheiro para fazer a reforma do Maracanã, que consumiu mais de R$ 1,3 bilhão, e ainda patrocinou torneio de hipismo da milionária Athina Onassis, que não é mais importante que o salário dos professores.

Cesar Maia (DEM)
— Na medida que em meu governo os royalties do pré-sal seriam priorizados na remuneração dos profissionais da educação e as reivindicações deles ou são administrativas ou implicam em valores pequenos, se comparados com a expansão da receita via esses royalties, não haveria conflito. Fui prefeito 12 anos e (Luiz Paulo ) Conde outros quatro, e não houve nenhuma greve geral dos profissionais da educação exatamente porque a prefeitura — que tem uma rede massiva semelhante ao estado — incorporava progressivamente as reivindicações. E mesmo em microprotestos nenhuma categoria teve dias de falta descontados da remuneração.

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