Cenas Cariocas: A guardiã da capela de São João de Deus

'Quando me lembro que cheguei perto dele, que me emocionei com sua presença, fico arrepiada até hoje' diz Maria Augusta

Por daniela.lima

Rio - Santo, a gente conhece de ver gravura em livro ou pintura em museu, de ouvir histórias em aula de catecismo. Na fé depositada, lá estão os sacrifícios heroicos em épocas distantes, os milagres a ele atribuídos. Se o menino nascer com saúde e o parto correr nos conformes da hora, agradecemos a São José. A Santo Antônio, as moças se apegam para consumar matrimônio. Na aflição das dívidas, quando não se vê mais saída do abismo, oramos a Santa Edwiges. Quando a causa é urgente, convém acender velas a Santo Expedito.

Na matéria do DIA de 20 de outubro de 1991%2C Maria Augusta aparece de binóculos na visita do Papa a Vitória%3A devoção que perduraAlexandre Medeiros / Agência O Dia


Mas e santo que a gente viu bem ali, na nossa frente? De quem se chegou a tocar as vestes? Ou até, por mais incrível que possa soar, com quem se trocou palavra ou dele recebeu afago? Pois é assim, como se fora uma contemporânea de São Pedro, que se sente a empregada doméstica Maria Augusta Braga, 64 anos, nascida na cidade mineira de São João Evangelista (um dos santos mais antigos, o mais jovem apóstolo de Cristo) e moradora do Vidigal desde 1982. Ela é devota de São João Paulo II, o mais novo santo da Igreja Católica. De tão ‘íntimo’ da comunidade, por lá ele é mesmo o São João de Deus.

“Quando eu me lembro disso, que cheguei perto dele, que me emocionei com sua presença, fico arrepiada até hoje. Santo, a gente estudou no colégio, que nem o Anchieta, ou aprendeu ao longo da vida a admirar nas igrejas. Mas santo que nem João Paulo II, que a gente conviveu, isso é uma bênção”, diz Maria Augusta, já no topo da lista de devotos do novo canonizado.

Devota, no caso dela, é até um termo injusto. A bem da verdade, Maria Augusta é a guardiã daquela que deve ser, se não por direito, mas de fato, a primeira capela carioca dedicada a São João Paulo II, no Vidigal. Lá está, na simplicidade de um galpão coberto por telhado de madeira, ao melhor estilo franciscano, a Capela de São Francisco de Assis, abençoada por João Paulo II em pessoa, quando foi à comunidade, em 2 de julho de 1980.

Maria Augusta lembra, emocionada, daquela visita em que o Papa deixou seu anel de presente em agradecimento à acolhida calorosa que recebeu. “Ele abençoou esta capela e, logo ali embaixo, fez questão de entrar numa casa e afagar uma criança. Uma pessoa simples, como São Francisco, e que mereceu virar santo”, diz Maria Augusta, que tem sob sua guarda a chave da capela, que cuida como se fosse sua casa, missão recebida dos frades agostinianos da Paróquia de Santa Mônica, no Leblon, à qual a comunidade do Vidigal é vinculada.

A capelinha fica em frente ao Bar da Paz, e a ela se chega após leve subida pelo 14, um dos acessos ao morro. O muro azul que chega a escondê-la vai ser substituído brevemente por uma parede de vidro. “Nós temos aqui uma relíquia. Não é todo mundo que tem uma capela abençoada por um santo. Todo mundo que chega tem que ver”, diz Maria, que aponta o velho sino de ferro na entrada e os quadros feitos por artesãos locais como atrações adicionais. As missas ocorrem nos primeiros e terceiros sábados do mês. Há também batizados e casamentos.

A devoção da guardiã a levou a ocupar o primeiro assento no ônibus que levou moradores do Vidigal a Vitória, na segunda das três viagens de João Paulo II ao Brasil, em 19 de outubro de 1991. À época, O DIA acompanhou a romaria de 550 quilômetros do Rio até a capital capixaba, e a emoção de Maria Augusta, então com 41 anos, diante do Papa. Na reportagem, o jornal registrava que os moradores do Vidigal estavam fazendo bingos e rifas para levantar o que seria a “Capela do Papa” na comunidade, com 56 lugares.

“Aquele sonho virou realidade, e hoje cabem mais de 60 pessoas na capela”, diz Maria Augusta, que acumula o trabalho de doméstica com várias tarefas da igreja: ela é ministra da Eucaristia, catequista, participa da Pastoral da Saúde, levando apoio a doentes em hospitais, e ainda canta no coral. Se fosse prova de título em concurso público, passava direto. Tem duas filhas, uma professora e outra, atriz. E agora se prepara para realizar outro sonho: ir à Terra Santa. “Imagine estar onde Jesus caminhou? Estamos organizando uma excursão da igreja, estou muito ansiosa”, diz Maria Augusta, que cuida há três anos da capela, substituindo Dona Preta, que vinha desde a fundação. “Ela me ensinou muito, e Deus me passou a responsabilidade”.

Em 1980, quando a capelinha do Vidigal foi abençoada por João Paulo II, dava para ver o mar em frente. Hoje, as construções tamparam a vista deslumbrante, e os moradores do outro lado da estreita viela podem ver a missa da janela de casa, praticamente debruçadas sobre o átrio da capela. Não se vê mais o mar. Mas agora, para os fiéis, o céu até parece mais perto.

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