Cenas Cariocas: Não tem figurinha carimbada. E daí?

Dezenas de pessoas, de todas as idades, fazem rodinhas de cabeças baixas, como se nada no planeta fosse mais importante do que aquilo em que estão concentradas: trocar figurinhas do álbum do Mundial

Por bianca.lobianco

Rio - Em volta da banca de jornais da Rua das Laranjeiras, dezenas de pessoas, de todas as idades, fazem rodinhas de cabeças baixas, como se nada no planeta fosse mais importante do que aquilo em que estão concentradas: trocar figurinhas do álbum da Copa do Mundo. São três da tarde de sábado. Um senhor de barba grisalha se aproxima lentamente. Tira um bolinho do bolso do casaco: “Quer trocar?”.

Saco da bermuda meu bolo de repetidas, preso com elástico de cabelo da Cecília, a filha caçula que me ajuda a abrir os pacotes, colar as figurinhas e fazer a lista das que faltam. O constrangimento inicial é logo desfeito, as repetidas trocam de mãos, o lápis risca na lista as bem-vindas. Feitas as contas, ele tira 19 do meu bolo, e eu, 11 do dele. Em outros tempos, eram elas por elas. Mas a conta desigual não pode ser mais forte que o far play. Um aperto de mão sela a negociação.

Um menino de uns seis anos está trocando para um primo. “O meu eu já completei”. Levou seis, me deu uma, saiu feliz da vida. Ele acha esquisita a seleção da Inglaterra, os jogadores com as caras imensas. Também acho. Um cara de quase dois metros se aproxima, para ele só faltam três. Uma delas é o time formado da Holanda, e eu tinha essa repetida. O cara socou o ar, qual Pelé comemorando um gol. E me deu um bolo recheado, de onde tirei sete, envergonhado pela diferença do placar. Uma mulher com três bolos parece enfastiada. “Faltam cinco, mas acho que vou lá na Uruguaiana, compro o resto e acabo logo com isso”. Assenti, para não levar um cartão amarelo. Mas qual a graça, madame?

Dezenas de pessoas, de todas as idades, fazem rodinhas de cabeças baixas, como se nada no planeta fosse mais importante do que aquilo em que estão concentradas: trocar figurinhas do álbum do MundialAlexandre Medeiros / Agência O Dia

Na Uruguaiana, é papo de profissional. Muita gente ganha dinheiro com a aflição alheia. Falta só a 328? É só ir em uma das “bocas” e comprar, com sorte, por R$ 3,00. Os gerentes do negócio têm fichários onde as repetidas são agrupadas por time. É até covardia ver dez, vinte 328, à disposição do freguês. Mal qual a graça, parceiro?

Bom é o troca-troca franco, amador. Aquela mãe que não sabe diferenciar um Rooney de um Van Persie ajudando a filha na banca de Laranjeiras. “Desisti de colocar em ordem. Já fiz isso cinco vezes, mas ela desfaz tudo na hora de trocar”. Bolinho fora de ordem enfraquece a relação. Mas quem vai reclamar diante de uma atitude abnegada como essa?

Só quem não entende a dialética desse mundo particular. Outro dia, uma mãe se surpreendeu ao buscar o filho no colégio e perceber que a saída não era a algazarra habitual. Pairava o silêncio no pátio, os moleques sentados em rodas trocando figurinhas. Não havia nem o bafo-bafo de outrora, quando uma boa batida em concha podia virar o bolo inteiro em disputa.

Agora não tem disputa, rola uma solidariedade. Quem está com o álbum adiantado ajuda quem está mais atrasado. É possível até detectar indícios de piedade. Francisco, meu filho mais novo, ao reparar minha página do Brasil em branco, sacou de seu bolo o escudo da CBF. “Pelo menos uma você já tem”. Figurinhas aproximam pais e filhos.

Alguns dirão que os álbuns antigos tinham mais glamour. A tarefa de completar as páginas deixava marcas de cola nos dedos. Havia as fáceis, em geral usadas no bafo-bafo, e as difíceis, estas fabricadas em menor quantidade, e guardadas como trunfos no troca-troca. Imagine você ter uma figurinha carimbada repetida? Um Rivelino, um Jairzinho? Isso valia o mundo. Ao contrário da camaradagem de hoje, vigorava uma certa soberba. Te dou um Gerson Canhotinha de Ouro, mas quero cinco em troca. Nem um cartola faria melhor. As figurinhas carimbadas são o tema do clássico 'O Gênio do Crime', de João Carlos Marinho. Quem não leu, trate de ler. Ajuda a entender a atual febre dos álbuns.

Não sofremos mais a falta de uma figurinha carimbada, aquele craque inatingível. Para completar os álbuns antigos, ficávamos à espera de Pelé, Garrincha, Paulo César Caju. Era, invariavelmente, um grand finale. Agora, nosso suplício pode se resumir a um volante de Honduras. Fazer o que?

Se não há o glamour, resta a ansiedade. Quando se aproxima a hora de completar o álbum – no meu, faltam 36 –, dá um vazio na gente. Uma espécie de síndrome do álbum inconcluso. É como se, ao colar a derradeira, perdêssemos a alegria. E aí entram estratégias de protelação do inevitável. Deixar de anotar alguns números na lista das faltantes. Ou deixar o bloco de repetidas em casa. Como um jogador que, depois de relutar, aceitasse que é hora de pendurar as chuteiras, e ter uma vida pacata longe dos gramados. Pelo menos pelos próximos quatro anos.

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