Por bianca.lobianco

Rio - O Maracanã abre hoje suas portas pela terceira vez na Copa do Mundo para um duelo curioso no país que tem na caipirinha sua bebiba mais famosa mundo afora. De um lado, a Bélgica, famosa entre os brasileiros menos pelo futebol e mais por ser uma das principais escolas cervejeiras do mundo. E uma das preferidas dos cariocas. Do outro, a Rússia, principal produtor de vodca do planeta.

Os cariocas, claro, têm cada um sua preferência. Apaixonado por futebol, Leonardo Botto é um dos precursores na produção de cerveja artesanal de excelência no Rio. Fez tanto sucesso que, há um ano, abriu seu próprio bar para os amigos assistirem aos jogos bebendo as cervejas que ele produz e, claro, as belgas.

“Acho difícil dizer qual a melhor cerveja, ou mesmo a melhor bebida, porque gosto é algo muito particular. Mas as cervejas belgas fazem muito sucesso aqui. E eu me identifico com elas por serem feitas de uma forma muito especial, por monges trapistas que têm o lema “reza e trabalha”. E o trabalho é fazer cerveja. E beber cerveja”, brinca o dono do Botto Bar, na Praça da Bandeira, pertinho do Maracanã.

Leonardo Botto abriu um bar na Praça da Bandeira para assistir aos jogos de futebol com os amigos bebendo as famosas cervejas belgasJoão Laet / Agência O Dia

O time da vodca tem menos torcedores, mas não menos fiéis. O reduto deles fica em Teresópolis, onde José Hisbello e a mulher, Maria Emília, que produzem na Região Serrana, a sete chaves, a especialíssima NaZdaróvia, servida no restaurante Dona Irene, construído há 50 anos por Hisbello para Eupraxia Wladimirovna Smolianikoff, uma aristocrata refugiada da Revolução Russa, que tornou-se sua professora particular.

“A vodca também tem uma cultura familiar. O russo toma um porre no primeiro dia de vida, quando a mãe pinga três gotas de vodca no peito antes da primeira mamada”, diverte-se Hisbello, com uma lucidez impressionante aos 85 anos.

Ele conta, inclusive, que a popularização da vodca se deveu a um porre involuntário de Ivan, o Terrível, em pleno século XVI, durante uma batalha campal.

“Ele encontrou uma garrafa d’água e usou para molhar o rosto e beber. Um soldado abatido o alertou, dizendo que era álcool para desinfentar. E era. A vodca era usada para isso. Mas aí já era tarde. Ivan já havia tomado gosto”, ensina Hisbello, que espera a visita do presidente russo Vladimir Putin, que virá ao Brasil em julho.

No país da caipirinha, a tão apreciada cerveja também é vítima de preconceito, o que divide o coração de Leonardo Botto ao torcer. “A cerveja na Bélgica é sagrada como o vinho no catolicismo.”

Cerveja Fluminense na memória

A aventura de Botto com o mundo das cervejas artesanais começou em 2006, quando ainda produzia na modesta cozinha de seu apartamento as cervejas ‘Fluminense Football Club’ e ‘Laranjeiras’, que venceram o 1º Concurso Nacional de Cerveja Artesanal, meses antes de o Tricolor vencer a Copa do Brasil.

Foi o pontapé inicial para se tornar um dos mais respeitados produtores do país. A devoção pela cerveja é tanta que a torcida nesta Copa será dividida entre o que são chamadas de escolas cervejeiras: Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. “Todos eles me representam. E o Brasil, claro”, brinca Botto.

Vascaíno com craque de 50

Muito antes de sonhar em produzir vodca, José Hismello era um engenheiro pernambucano que chegou ao Rio junto com um conterrâneo que faria fama no futebol: Ademir Menezes, artilheiro da Copa de 50.

“Queixada (apelido de Ademir) estudou comigo no Colégio Marista e era uma pessoa muita querida, bem-humorada. Eu torcida pelo Santa Cruz, mas virei vascaíno por causa dele”, conta.
Quando Ademir parou de jogar, o coração foi conquistado por Garrincha.

“Ele era incrível. Mas eu era mais Garrincha que Botafogo. Torcia por ele apenas”, recorda.


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