Novas imagens mostram prisão de médico proibido de exercer a profissão

Fernando Lamy teve registro cassado pelo Cremerj

Por thiago.antunes

Rio - Novas imagens exclusivas de O DIA mostram a prisão do ortopedista Fernando Cesar Lamy Monteiro da Silva, 37 anos,  que reve o registro cassado pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro em 5 de junho por erro médico, que levou à morte um homem de 37 anos depois de cirurgia na coluna. O médico foi detido, nesta segunda-feira, em seu consultório, em Vila Valqueire, por policiais da 26ª DP (Todos os Santos). Computadores e documentos foram apreendidos.


Ele vai responder em liberdade por exercício ilegal da profissão. O advogado do médico, João Carlos Ferreira, disse que só falará do assunto após tomar conhecimento dos fatos. Nos documentos que integram o processo contra ele no Cremerj e o inquérito da 26ª DP, há relatos sobre mais quatro pessoas que morreram após ser operadas por Lamy e de outras cinco que ficaram com sequelas graves, algumas irreversíveis.

Na segunda-feira, dia 21, repórteres do DIA estiveram no consultório de Fernando Cesar Lamy para uma consulta marcada na quinta-feira da semana anterior. O médico indicou exame a ser feito, receitou remédios, determinou o uso imediato de cinta e explicou nova técnica de cirurgia na coluna, sem corte. “São apenas seis furos com uma agulha, para reidratar o disco da coluna”, disse.

Médico Fernando Lamy (C) foi levado por policiais%2C prestou depoimento e vai responder em liberdadeJoão Laet / Agência O Dia

No receituário de Lamy, o cabeçalho informa que ele é titular de quatro entidades. Mas em pelo menos emtrês delas a informação é falsa: as sociedades brasileiras de cirurgia na coluna, no joelho e minimamente invasiva. Só não foi possível conferir a indicação da Academia Americana de Ortopedia.

Para destacar sua importância, contou ter operado um ministro da Agricultura do Brasil, sem citar nome, num hospital nos EUA, e afirmou que o ex-presidente Lula intercedeu para que ele e outro médico trouxessem para o país a técnica da cirurgia. “Um funcionário da Anvisa queria R$ 50 milhões para liberar (...) mas o Lula abriu para nós (...) e o funcionário foi demitido”, gabava-se.

Susan lamenta e considera suspeita a morte do marido%2C Marcelo%2C que morreu após ser operado pelo médicoMaíra Coelho/ Agência O DIA

Carimbos falsos

O ortopedista também é acusado de usar carimbos e falsificar assinaturas de médicos para preencher formulários exigidos em cirurgias, como se os profissionais tivessem auxiliado nos procedimentos. Pelo menos dois deles foram identificados: Antônio Carlos dos Santos Júnior e Marcos Bettini Pitombo, que negaram qualquer participação em equipe de Lamy. Uma instrumentadora conta em depoimento que ele também usava carimbos de médicos já falecidos.

O caso que levou à cassação de Fernando Cesar Lamy pelo Cremerj — a decisão foi encaminhada ao Conselho Federal de Medicina para ser referendada — é o do analista de sistemas Marcelo Gonçalves Costa, 37 anos, que morreu em julho de 2012 de hipovolemia (perda de grande quantidade de sangue) e infarto, segundo o atestado de óbito assinado por Lamy e endossado pela médica Luciana Lima Diniz, do Hospital Copa D’Or, local da cirurgia.

Estranho é que, no resultado do exame de corpo de delito, consta a presença de hematoma em regiões posteriores do hemisfério cerebral direito e do cerebelo. Exame complementar atesta que Marcelo morreu de edema cerebral e edema nos pulmões, derivado de coronarioesclerose (bloqueio das artérias coronárias por gordura). “É muito suspeito. Não havia hematomas na cabeça do meu marido. Ele levava vida saudável”, questiona Susan Christie dos Santos de Oliveira, 34 anos, viúva de Marcelo.

Médico indicou cirurgia a repórter

Meu primeiro contato com o médico Fernando Cesar Lamy Monteiro da Silva foi às 14h10 do dia 17 de julho. Telefonei para o consultório dele (2704-8279) e um homem me atendeu. Falei que desejava marcar uma consulta. Dei meu nome correto e perguntei se ele era o doutor Lamy. A resposta foi afirmativa.

Chutei que Maria Helena, de Irajá, tinha indicado. Eu nem sei quem é Maria Helena, de Irajá. Mas ele respondeu de pronto: “Sei quem é, sim”, disse imperativamente. E passou o telefone para a secretária, que anotaria meus dados. Dei meu nome outra vez, minha profissão passou a ser ‘dona de casa’, ditei o número do celular. Perguntou se eu tinha convênio com plano de saúde.

Na segunda-feira, dia 21, fui ao consultório na Rua Luiz Beltrão, 160, sala 312, em Vila Valqueire, Zona Norte. Cheguei andando devagar, como se estivesse com dor na coluna e as pernas prendendo, amparada no braço de um colega. Na recepção, não foi difícil conseguir informações básicas com a secretária: antes de mim, dez outras pessoas haviam se consultado entre as 14h e as 17h30, ao preço de R$ 150.

Repórter que tem problemas de coluna foi atendida pelo médico cassado pelo Cremerj no dia 21Reprodução

Entrei no consultório, sentei e contei os sintomas — o que era absolutamente verdade, embora, naquele momento, eu não estivesse com crise de coluna lombar. Ele mandou que eu fizesse alguns exercícios de abaixa-levanta, dobra-perna, estica-perna, e já foi dando o veredito, citando as vértebras em que eu deveria estar com problemas.

Fernando Cesar Lamy falou que pediria uma ressonância magnética, mas adiantou que eu devia estar com hérnia de disco e que a cirurgia era uma verdadeira moleza devido à nova técnica de reidratar os discos.

“É um equipamento importado. São agulhas. A gente insere seis agulhas nos discos, entre as vértebras, e faz a reidratação. A pessoa sai andando da cirurgia, porque são apenas furos”, descreveu, remetendo-me imediatamente ao caso de Marcelo, que também sofrera apenas seis pequenos cortes nas costas e pouco tempo depois estava morto.

Eu dava a máxima atenção ao médico, com expressões de satisfação pela excelência dele no assunto. O ego inflou. Lamy começou a discorrer sobre suas proezas profissionais, na tentativa de me impressionar cada vez mais. O médico liberou o narcisismo. “Aprendi essa técnica no exterior. Trabalhei quatro anos na Alemanha, três em Paris (França) e dois nos Estados Unidos”. Em depoimento ao Cremerj, os números já eram outros: falou ter ficado quatro anos em Berlim, na Alemanha, mais quatro na França e três na Califórnia (EUA). Mas não disse ao Conselho em quais hospitais ganhara tanta experiência.

Sem fazer nenhuma pergunta sobre a possibilidade de eu ser alérgica a alguma substância dos medicamentos ou se sofria de outras doenças, receitou um anti-inflamatório (que eu não poderia tomar pelo fato de ser doente renal crônica) e um remédio para evitar a dor.

Ao ler a bula dos itens receitados, levei um grande susto: além das inúmeras contraindicações, afirmava que o paciente deveria ser advertido de que sua capacidade de dirigir veículos poderia ficar comprometida durante o período de ingestão do remédio. Além disso, me mandou adquirir uma tal de cinta Putty, indicando até a loja onde eu poderia fazer a compra.

Dois dias depois da consulta com Fernando Lamy, estive no consultório do neurocirurgião que há três anos acompanha os desmandos da minha coluna lombar e já operou com sucesso minha cervical. Ele olhou a ressonância da lombar que fiz semana retrasada e foi taxativo: ainda não há indicação de cirurgia para a minha hérnia de disco e dá para optar por tratamentos alternativos.

Foi então que contei a história de Fernando Cesar Lamy, incluindo a recomendação da cinta Putty. Ele arregalou os olhos e disparou: “Esse material não é indicado para o seu caso. Você não pode usar isso. Essa cinta é para quem está com lesão na coluna.” Vivas ao meu neurocirurgião.

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